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Sinopse: Uma visita esperada ao templo
de virgem. Um intenso momento antes do fim.
FANDOM: Saint Seiya
Paring: Ikki x Shaka
Gênero: Romance Yaoi
Songfic: Música: "Tatuagem" de Chico Buarque
Quando
a noite vem
Oneshot
A noite estava escura, funesta
como o gotejar das lágrimas da estátua de Athena. Alguns diriam que aquilo era
efeito da umidade que cercava aquele inverno grego, mas para aqueles que
conheciam os deuses, aquele gotejar no mármore frio era fruto das lágrimas da
deusa impotente que esperava o destino de mártir; como toda a humanidade.
O selo havia se rompido, as
estrelas malignas estavam se agrupando e logo Hades seria despertado para uma
nova guerra santa. Como sombras no caos, o inimigo se movia, fortalecia-se e
estava pronto para atacar. Ataque que aconteceria em breve. Mas tinha data
certa.
O homem que observava os últimos
raios de sol daquele dia histórico sabia o momento exato e sabia de todas as
danças que fariam parte daquele baile mitológico. Ele sabia que logo seria
exigido de si algo muito importante. Estava preparado. Preparou-se para isso
desde o seu nascimento, pois sempre esteve cônscio do dia da sua morte.
A morte que o amedrontava quando
criança já não tinha nenhum efeito sobre ele. Agora, ela apenas despertava-lhe
certo interesse filosófico, pois talvez fosse a única coisa que ainda não
houvesse experimentado.
A única? Não.
Havia algo que ele ainda não
havia experimentado, embora sucumbisse a esse algo há algum tempo. Como tudo em
sua vida, ele preferia os questionamentos às experiências reais, mas essa
experiência real também possuía o momento certo de acontecer, e ele esperava por
ela. Por isso, ao escutar o tilintar do metal da armadura nas pedras do seu
templo, ele não se sobressaltou, assim como não se sobressaltou ao sentir
aquele cosmo quente e agressivo. Ele nunca abandonava aquela agressividade, era
realmente algo inato à personalidade daquele homem destemido, um dos poucos que
não o temia, ao menos não o temia da forma que as outras pessoas o temiam,
embora o temesse por outros motivos que para ele também era muito fácil de
captar.
O cavaleiro parou no meio do
templo. O guardião não se voltou, continuou a admirar a paisagem, mesmo que
mantivesse os olhos estrategicamente fechados.
– Não é um bom momento para
visitas – ele disse apenas, enquanto o outro cavaleiro parava.
– Não é uma visita. – Replicou a
voz grave do outro, mas não com a agressividade corriqueira, havia certa
nuance, bem tênue, de melancolia, que o cavaleiro de ouro sentiu por ser aquele
que dominava muitos dos mistérios, embora não todos.
– E o que é então?
– Tenho certeza que sabe por que
estou aqui. – Insistiu o jovem cavaleiro sem se perturbar com a voz calma e
indiferente do outro.
– Sim, eu sei. Também sonhei
contigo.
– Sim, eu sei. Os sonhos
começaram há algumas semanas. Sei que logo a guerra se iniciará, mas não foi
apenas com isso que sonhei.
O cavaleiro de ouro silenciou e
mergulhou nos sonhos que povoavam sua mente nos últimos tempos. Uma ave de fogo
que logo se transformava num ser zoomórfico e um deus de pele azul. Depois tudo
se desfazia e novamente a ave de fogo o envolvia e queimava sua pele,
deitando-se sobre ele como se numa cúpula mística. Ele entrava em êxtase e
então... morria.
Voltou-se finalmente para o outro
e caminhou até ele, fazendo o metal da sua armadura também soar em contato com
as pedras.
O mais novo o encarou por um tempo,
e ele também o encarou, embora continuasse de olhos fechados.
– O que diziam teus sonhos? –
indagou o cavaleiro mais velho.
– Diziam que eu deveria estar
aqui. Nesse momento. E que não teríamos um futuro, não teríamos nada além desse
momento para contar aqui ou na eternidade. Mas seríamos uma marca eterna um
para o outro. Uma marca na carne e no karma.
O indiano continuou parado, os
olhos ainda cerrados, fortalecendo a expressão de asceta. Uma marca eterna, uma
tatuagem forjada pela força dos cosmos de ambos.
Ele então estendeu a mão ao outro
cavaleiro que a tomou com força e o puxou para si, fazendo o metal das
armaduras se chocarem e produzirem mais sons.
O beijo foi intenso, cheio de uma
paixão refreada por muitos anos e que ambos sabiam que deveria explodir para
depois se extinguir... Para sempre...
Quero ficar no teu
corpo
Feito tatuagem
Que é pra te dar
coragem
Pra seguir viagem
Quando a noite vem
E também pra me
perpetuar
Em tua escrava
Que você pega, esfrega
Nega, mas não lava
Em tua escrava
Que você pega, esfrega
Nega, mas não lava
Línguas e lábios se tragaram com
uma fome nunca antes sentida, mas o cavaleiro mais velho se afastou, embora
continuasse próximo, tomou-lhe a mão novamente e o levou para dentro do quarto.
Os sons agora eram das armaduras se descolando dos corpos e em seguida as roupas
iam para o chão para que as peles pudessem se encontrar num abraço de fogo,
ímpeto incontrolável de uma paixão antiga, por anos dormente em corpos jovens,
mas cheios de cicatrizes reais e emocionais feitas cruelmente por uma vida de
dor, renúncias e medos.
O loiro levou a mão ao queixo do
outro e eles se encararam mais uma vez, os lábios próximos.
Quero brincar no teu corpo
Feito bailarina
Que logo te alucina
Salta e se ilumina
Quando a noite vem.
O moreno sentiu os lábios
tremerem de uma emoção genuína e tépida. Geralmente, não se deixava vencer por
tais sentimentalidades, mas aquela era sua hora, o tempo preciso daquele
sentimento grandioso que nunca ousou confessar.
– Abra os olhos... – foi um
sussurrou, e ele viu a hesitação do outro, mas apenas o segurou mais forte nos
braços. – Eu posso suportar...
E então o mais velho o obedeceu,
exibindo os orbes azuis que fez tudo ao redor se agitar, algumas coisas se
partirem por mais que ele tentasse controlar o impacto. O moreno gemeu e mordeu
os lábios, mas não o soltou, e depois que tudo serenou, o loiro o encarou
novamente, vendo o filete de sangue que descia por seu queixo. Não se
desculpou, não falou nada, apenas colheu com a língua o sangue e voltou a
beijá-lo ardentemente.
E nos músculos exaustos
Do teu braço
Repousar frouxa, farta
Murcha, morta de cansaço
Peles, pelos, lábios... Laços. A
intensidade dos toques, das sensações, do reconhecimento...
Não existia amanhãs, eles sabiam,
não existiam possibilidade de juras e promessas. Nunca existiram. Havia apenas
duas massas de desejo quase incandescente... E no futuro, uma missão.
Quero pesar feito cruz
Nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem
Quero ser a cicatriz
Risonha e corrosiva
Marcada a frio
Ferro e fogo
Em carne viva
Não houve palavras. Logo eles se
erguiam da cama, recompuseram-se. Shaka foi o primeiro a deixar o quarto, indo
para seu jardim, onde se sentou em posição de lótus, envolvido por seu cosmo
poderoso. Antes de deixar a casa de virgem, Ikki ainda o mirou por um tempo,
algo indefinido dentro de si; indefinido, mas satisfeito. Era apenas isso que
tinha que pensar, que aquela fome, aquela ânsia estava satisfeita, mesmo que
estivessem a alguns segundos do fim.
Virou-se e partiu da casa de
virgem. Os primeiros espectros chegariam ao santuário, minutos depois.
Corações de mãe, arpões
Sereias e serpentes
Que te rabiscam
O corpo todo
Mas não sentes
Fim

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