domingo, 4 de janeiro de 2015

"Quando a noite vem" - ONESHOT


A imagem não me pertence - Créditos ao artista.

Sinopse: Uma visita esperada ao templo de virgem. Um intenso momento antes do fim.

FANDOM: Saint Seiya
Paring: Ikki x Shaka
Gênero: Romance Yaoi
Songfic: Música: "Tatuagem" de Chico Buarque

Quando a noite vem

Oneshot

A noite estava escura, funesta como o gotejar das lágrimas da estátua de Athena. Alguns diriam que aquilo era efeito da umidade que cercava aquele inverno grego, mas para aqueles que conheciam os deuses, aquele gotejar no mármore frio era fruto das lágrimas da deusa impotente que esperava o destino de mártir; como toda a humanidade.

O selo havia se rompido, as estrelas malignas estavam se agrupando e logo Hades seria despertado para uma nova guerra santa. Como sombras no caos, o inimigo se movia, fortalecia-se e estava pronto para atacar. Ataque que aconteceria em breve. Mas tinha data certa.

O homem que observava os últimos raios de sol daquele dia histórico sabia o momento exato e sabia de todas as danças que fariam parte daquele baile mitológico. Ele sabia que logo seria exigido de si algo muito importante. Estava preparado. Preparou-se para isso desde o seu nascimento, pois sempre esteve cônscio do dia da sua morte.

A morte que o amedrontava quando criança já não tinha nenhum efeito sobre ele. Agora, ela apenas despertava-lhe certo interesse filosófico, pois talvez fosse a única coisa que ainda não houvesse experimentado.

A única? Não.

Havia algo que ele ainda não havia experimentado, embora sucumbisse a esse algo há algum tempo. Como tudo em sua vida, ele preferia os questionamentos às experiências reais, mas essa experiência real também possuía o momento certo de acontecer, e ele esperava por ela. Por isso, ao escutar o tilintar do metal da armadura nas pedras do seu templo, ele não se sobressaltou, assim como não se sobressaltou ao sentir aquele cosmo quente e agressivo. Ele nunca abandonava aquela agressividade, era realmente algo inato à personalidade daquele homem destemido, um dos poucos que não o temia, ao menos não o temia da forma que as outras pessoas o temiam, embora o temesse por outros motivos que para ele também era muito fácil de captar.

O cavaleiro parou no meio do templo. O guardião não se voltou, continuou a admirar a paisagem, mesmo que mantivesse os olhos estrategicamente fechados.

– Não é um bom momento para visitas – ele disse apenas, enquanto o outro cavaleiro parava.

– Não é uma visita. – Replicou a voz grave do outro, mas não com a agressividade corriqueira, havia certa nuance, bem tênue, de melancolia, que o cavaleiro de ouro sentiu por ser aquele que dominava muitos dos mistérios, embora não todos.

– E o que é então?

– Tenho certeza que sabe por que estou aqui. – Insistiu o jovem cavaleiro sem se perturbar com a voz calma e indiferente do outro.

– Sim, eu sei. Também sonhei contigo.

– Sim, eu sei. Os sonhos começaram há algumas semanas. Sei que logo a guerra se iniciará, mas não foi apenas com isso que sonhei.

O cavaleiro de ouro silenciou e mergulhou nos sonhos que povoavam sua mente nos últimos tempos. Uma ave de fogo que logo se transformava num ser zoomórfico e um deus de pele azul. Depois tudo se desfazia e novamente a ave de fogo o envolvia e queimava sua pele, deitando-se sobre ele como se numa cúpula mística. Ele entrava em êxtase e então... morria.

Voltou-se finalmente para o outro e caminhou até ele, fazendo o metal da sua armadura também soar em contato com as pedras.

O mais novo o encarou por um tempo, e ele também o encarou, embora continuasse de olhos fechados.

– O que diziam teus sonhos? – indagou o cavaleiro mais velho.

– Diziam que eu deveria estar aqui. Nesse momento. E que não teríamos um futuro, não teríamos nada além desse momento para contar aqui ou na eternidade. Mas seríamos uma marca eterna um para o outro. Uma marca na carne e no karma.

O indiano continuou parado, os olhos ainda cerrados, fortalecendo a expressão de asceta. Uma marca eterna, uma tatuagem forjada pela força dos cosmos de ambos.

Ele então estendeu a mão ao outro cavaleiro que a tomou com força e o puxou para si, fazendo o metal das armaduras se chocarem e produzirem mais sons.

O beijo foi intenso, cheio de uma paixão refreada por muitos anos e que ambos sabiam que deveria explodir para depois se extinguir... Para sempre...

Quero ficar no teu corpo
Feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Pra seguir viagem
Quando a noite vem

E também pra me perpetuar
Em tua escrava
Que você pega, esfrega
Nega, mas não lava

Línguas e lábios se tragaram com uma fome nunca antes sentida, mas o cavaleiro mais velho se afastou, embora continuasse próximo, tomou-lhe a mão novamente e o levou para dentro do quarto. Os sons agora eram das armaduras se descolando dos corpos e em seguida as roupas iam para o chão para que as peles pudessem se encontrar num abraço de fogo, ímpeto incontrolável de uma paixão antiga, por anos dormente em corpos jovens, mas cheios de cicatrizes reais e emocionais feitas cruelmente por uma vida de dor, renúncias e medos.

O loiro levou a mão ao queixo do outro e eles se encararam mais uma vez, os lábios próximos.

Quero brincar no teu corpo
Feito bailarina
Que logo te alucina
Salta e se ilumina
Quando a noite vem.


O moreno sentiu os lábios tremerem de uma emoção genuína e tépida. Geralmente, não se deixava vencer por tais sentimentalidades, mas aquela era sua hora, o tempo preciso daquele sentimento grandioso que nunca ousou confessar.


– Abra os olhos... – foi um sussurrou, e ele viu a hesitação do outro, mas apenas o segurou mais forte nos braços. – Eu posso suportar...

E então o mais velho o obedeceu, exibindo os orbes azuis que fez tudo ao redor se agitar, algumas coisas se partirem por mais que ele tentasse controlar o impacto. O moreno gemeu e mordeu os lábios, mas não o soltou, e depois que tudo serenou, o loiro o encarou novamente, vendo o filete de sangue que descia por seu queixo. Não se desculpou, não falou nada, apenas colheu com a língua o sangue e voltou a beijá-lo ardentemente.

E nos músculos exaustos
Do teu braço

Repousar frouxa, farta
Murcha, morta de cansaço

Peles, pelos, lábios... Laços. A intensidade dos toques, das sensações, do reconhecimento...
Não existia amanhãs, eles sabiam, não existiam possibilidade de juras e promessas. Nunca existiram. Havia apenas duas massas de desejo quase incandescente... E no futuro, uma missão.

Quero pesar feito cruz
Nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem

Quero ser a cicatriz
Risonha e corrosiva
Marcada a frio
Ferro e fogo
Em carne viva


Não houve palavras. Logo eles se erguiam da cama, recompuseram-se. Shaka foi o primeiro a deixar o quarto, indo para seu jardim, onde se sentou em posição de lótus, envolvido por seu cosmo poderoso. Antes de deixar a casa de virgem, Ikki ainda o mirou por um tempo, algo indefinido dentro de si; indefinido, mas satisfeito. Era apenas isso que tinha que pensar, que aquela fome, aquela ânsia estava satisfeita, mesmo que estivessem a alguns segundos do fim.


Virou-se e partiu da casa de virgem. Os primeiros espectros chegariam ao santuário, minutos depois.


Corações de mãe, arpões
Sereias e serpentes
Que te rabiscam
O corpo todo
Mas não sentes

Fim





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