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e sua divulgação não tem fins lucrativos.
Créditos totais ao artista
Intense Rain
Oneshot
Fandom: Saint Seiya
Couple: Ikki x Shun
Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer
Fernando Pessoa
Chovia como há muito
tempo não se via na Grécia e por isso as pessoas se protegiam em suas casas,
deixando tudo ao redor vazio, inclusive o santuário da deusa Athena. Aliás, há
muito tempo que aquele lugar mais parecia um castelo abandonado, destituído de sua
gloria antiga em que guerreiros desfilavam em trajes militares o tempo todo. O
santuário não era o mesmo há muitos anos. Diversos anos desde a última grande
guerra, a guerra em que o mundo foi partido.
Não que houvesse uma
decadência real, era somente uma impressão, uma sensação ao caminhar por
aquelas ruas desabitadas, solitárias. Tão solitárias quanto o homem que as
atravessavam e adentravam aquele lugar sagrado e que cheirava a morte.
O homem que agora
estava parado mirando um túmulo do gigantesco cemitério participara da última
guerra e jurara nunca mais participar de nenhuma, em memória àqueles que se
foram. O túmulo que ele olhava naquele momento era simplesmente simbólico, já
que nada restara dos guerreiros dourados que lutaram naquela guerra.
Tornaram-se pó de estrelas, um pensamento no vazio universo e deveriam
descansar naquele momento em algum lugar das Ilhas Afortunadas.
A chuva continuava
enquanto ele observava a lápide vazia e tentava achar nela alguma
representatividade que o fizesse viajar de tão longe todos os anos para prestar
aquela homenagem.
Ajoelhou-se, colocou o
pequeno vaso com um bonsai e uma estátua de Buda sobre o túmulo e tentou
imaginar qual o tipo de prece que faria num momento como aquele. Não encontrou,
então se ergueu novamente, vazio, e ficou observando o túmulo, sentindo a chuva
que escorria por seus cabelos e pelo casaco que vestia.
— Nunca imaginei que viesse
aqui todos os anos acariciar um túmulo vazio. Ele faz tanta falta assim?
A voz continuava igual.
O timbre, pois a entonação sarcástica quase o fez pensar que pertencesse à
outra pessoa. Fechou os olhos por um tempo, tentando não demonstrar o quanto
aquele encontro fatal e talvez inevitável o afetasse.
— Faz parte da nossa
cultura render homenagens aos mortos. — Respondeu simplesmente.
— Você nunca se
importou com isso. Bem, mas eu sei que sempre vai visitar a ilha submersa onde descansa
a tal menina. Agora faz o mesmo com um túmulo vazio no santuário.
— Então não deveria
estar surpreso. — Respondeu mais ríspido do que gostaria.
— Não estou surpreso.
Isso não me deixa surpreso, apenas triste. Triste por saber que ele foi tão
importante para você.
Ikki se calou por um
tempo, crispando os lábios, tentando imaginar o que dizer. Não podia negar que
amara demais, amara sem limites o homem que não descansava naquele túmulo. Mas
isso não tinha o significado excludente que aquele homem que estava parado
agora ao seu lado pensava ter.
— Você sempre soube a
exata importância que ele teve para mim, Shun.
— Talvez eu preferisse
acreditar que não. Que não me deixou por ele...
Aquela velha história.
Por que as pessoas gostam de sacudir as velhas correntes, despertando fantasmas
já adormecidos? Por que isso num dia chuvoso de setembro?
— Eu não o deixei por
ele... — Ikki murmurou, sem coragem de mirar o irmão. Há tantos anos não o via,
não o queria ver, não queria relembrar, despertar velhos e incompreensíveis
sentimentos.
O outro suspirou e mesmo
que não o olhasse, o mais velho percebeu o curvar de um sorriso amargo nos
lábios finos e bonitos. Ainda se lembrava do primeiro beijo. Por que deixara
aquilo acontecer? Talvez simplesmente porque Shun queria, e ele nunca fora
muito bom em negar alguma coisa a ele, mas também talvez porque ele próprio quisesse,
porque não o visse somente como seu irmão há muitos anos... Ou talvez fosse uma
maldição como ele próprio dissera dias depois, fazendo o irmão chorar e
sentindo-se miserável por tal crime.
— Na verdade eu não entendo
seus motivos. — Shun o libertou das suas lembranças, levando-o a crer que ele
acreditara em suas palavras.
— Claro que entende,
aquilo era errado, somos irmãos.
O mais novo riu com
mais amargura que divertimento.
— Ah, Ikki, essa
questão de sangue tinha mesmo tanta importância? Crescemos longe um do outro,
sonhando um com o outro, querendo a presença um do outro... Acho natural que
nossos sentimentos se confundissem, não?
— Falou certo, foi uma
confusão. Não era real.
— Para mim foi.
Agora foi a vez do
moreno sorrir com certo sarcasmo amargo.
— E foi por isso que
menos de um mês depois você já estava na cama do Pato?
— Nunca fui igual a
você e sua necessidade de solidão. Eu precisava de alguém, precisava de um
ombro, de um corpo, de carinho. Você não tem direito a me julgar, não foi
exatamente o que também vez? Às vezes eu duvido de que sejamos mesmo irmãos,
Ikki. Somos completamente diferentes um do outro.
— Sim, eu sei. —
Lacônico, amargo.
Silêncio. Apenas o som
da chuva que cantava a música daqueles 12 anos de distância.
Silêncio.
Só silêncio e mágoa.
Shun mirou a lápide e o
pequeno bonsai levado por Ikki com um misto de respeito e desprezo.
— Talvez ele fosse meu mestre
se houvesse sobrevivido...
— Não o coloque nesse
diálogo, Shun, estou avisando. — Disse sério, em advertência.
— Você chamou o Hyoga
para nossa conversa, por que não posso chamar seu amante também? O que faz dele
tão sagrado, tão especial?
O ciúme era evidente naquelas
palavras, e Ikki sentiu-se triste. Sentiu-se derrotado por ter causado tantas
dores ao irmão, por tê-lo deixado sozinho nos momentos que ele mais precisou,
por tê-lo feito odiar Shaka sem que houvesse nenhum motivo para isso.
— Ele nunca foi meu amante.
— Confessou.
Aquela afirmação
pareceu confundir o mais novo e ele recuou um passo. Ikki o olhou pela primeira
vez naquele diálogo, embora um breve olhar, e não soube se o que ele tinha nos
olhos eram lágrimas ou chuva.
— Ele era um asceta, um
iluminado. Eu era sujo demais para tocá-lo.
— Mas você o quis...
— Sim.
— Muito?
— Muito, Shun. —
Confessou num suspiro. Era o que ele queria.
O mais novo mordeu os
lábios e escondeu uma expressão dolorida, voltando a encarar o irmão em
seguida.
— Você me fez pensar
que foram amantes por todo esse tempo... Por quê?
— Era uma forma de mantê-lo
longe de mim. — Afirmou com um meio sorriso melancólico. — Mas isso não
significa que eu não o tenha amado. Eu amei Shaka profundamente.
— Como nunca me amou...
— O amei do mesmo
jeito, Shun, talvez mais, não sei. Só que eram sentimentos diferentes. Eu
simplesmente não podia ficar com você.
— Por quê?! E não diga
que é por sermos irmãos! Isso é ridículo! — Shun explodiu e depois riu, sem
jeito, como quem não aceita perder o controle. Não depois de tanto tempo, e
naquele momento Ikki o achou extremamente parecido com o homem que visitava e
que não jazia naquela sepultura.
O cavaleiro de fênix
sorriu e baixou o olhar para a grama que era inundada por aquela chuva. Sim,
era por isso. Isso para ele era o suficiente; o que parecia não ser nada para o
mais novo, para ele era tudo. Uma ligação de sangue. Um sacramento inviolável.
Aquilo era uma heresia, por que será que Shun não percebia isso?
Quis gritar,
explicar...
— Me desculpe... — Mas
estas foram as únicas palavras que saíram dos seus lábios. Não adiantava querer
falar agora; não agora depois que tudo havia se perdido.
Shun sorriu com o canto
dos lábios novamente.
— Desculpas só não
bastam, Ikki. Eu te falei isso daquela vez e falo agora novamente. — Suspirou
cansado. — É estúpido estarmos aqui...
— Bom ponto, o que você
faz aqui? — Virou-se e finalmente encarou os olhos verdes do irmão. Acabou
paralisado por aquele olhar, o olhar da sua infância, o olhar que simplesmente
o desarmava de todas as maneiras possíveis. O olhar da felicidade inocente do
passado; antes de tudo ser mágoa, tudo ser bruma fria de fim de outono.
Shun ficou um tempo
gigantesco sem responder àquela pergunta. Olhava-o como se tentasse desvendar
todos os mistérios daqueles vários anos de ausência. Como se quisesse uma
explicação ou simplesmente um abraço, uma palavra, um gesto que levasse a
magoa, que a lavasse, limpasse como aquela chuva intensa fazia com a Grécia
naquele momento.
Mas ele simplesmente
mexeu nos cabelos. Sim, moveu a franja castanha que se grudava à sua testa
pálida e murmurou algo inaudível, dando as costas ao irmão e se afastando.
— Shun. — Ikki
interrompeu seus passos e depois disso ficou mirando as costas deles. Pensando
nos anos que os separavam; nas dores; nas lutas...
Ele estava mais alto,
mais confiante. Não parecia mais o menino trêmulo que tinha medo do escuro e
nem o adolescente inseguro que buscava seus braços, sua boca...
Ele estava mais
parecido com o homem que não jazia naquela sepultura do que poderia supor. Mas não
diria isso a ele, isso o deixaria irritado, enciumado com certeza. Sorriu
levemente, sentindo uma emoção estranha no peito, um leve cintiliar no cosmo...
Talvez fosse alegria... Esperança.
12 anos. 12 anos são
suficientes para terminar um sentimento como aquele? Quantas bocas Shun deveria
ter beijado depois da sua. Quantos amantes tivera depois de Hyoga? Engraçado
pensar no Pato. Pensara que os dois ficariam juntos para sempre. Cada um
matando a carência patológica que o outro sentia; um a ausência do irmão, o
outro a ausência da mãe. E isso não lhe parecia ruim. Um cuidaria do outro. Seria
bom. Mas não foi assim.
— Eu sabia que você
estaria aqui. — Ele respondeu depois de muito tempo. Sua voz trocando acordes
com a chuva torrencial. Estranhamente, não havia raios e trovões, só aquela
canção soturna dos pingos de água dançando por tudo ao redor.
O mais velho sentiu o
coração retumbar no peito e depois cair num baque surdo, rasgando-se em dor, em
saudade, em desencanto. A esperança e a leve alegria descendo como a água por
um córrego em direção ao mar bravio.
— Depois de tanto
tempo... – murmurou.
— Nós dois ainda
visitamos túmulos, Ikki...
Shun falou e sorriu,
olhando-o envolto em chuva e saudade.
Ele pensou em partir,
mas a voz do irmão novamente o interrompeu.
— Ei!
— Fale.
— Sinto sua falta.
— Eu também, Ikki.
Encararam-se mais uma
vez no silêncio melodioso da chuva. A emoção gritava nos olhos de ambos como um
lago agitado de inverno que se cobria de uma pequena camada de gelo, uma
pequena camada de civilidade necessária para não se entregar às emoções
incandescente que ainda vibravam em algum lugar dentro deles.
Pensaram que o que
sentiam era como aquela chuva intensa, um temporal incessante que nunca
deixaria a alma, que manteria aquela melancolia de saudade do que poderia ter
sido, mas não foi...
Era como morte na infância,
um sonho interrompido com tristeza... Mas que ainda é sonho.
Shun aproximou-se,
chegando bem perto do outro e não soube se o que viu em seus olhos foi lágrima
ou chuva. Talvez fossem os dois... Eram olhos de tormenta e paraíso.
— Eu ainda amo você...
Ikki sorriu, um sorriso
que mesclava dor, desespero, alegria. Tocou o rosto do mais novo com o
polegar... A pele fria, molhada...
— Eu sempre amei você,
Shun.
Abraçaram-se com força,
envoltos naquela intensa chuva de fim de tarde. Um simples fim de tarde chuvosa
em que as pessoas se escondem dentro de suas casas, e não sabem que
civilizações passadas são demolidas em abraços, que dores são acalantadas por
um simples toque ou por mínimas palavras.
“Eu sempre amei você.”
Aquilo era o suficiente para que seu coração se curasse, se não do amor
impossível, ao menos da mágoa.
“Eu também vou te amar
para sempre, Ikki.” Shun pensou, mas não disse. Era apenas isso.
Eles se afastaram sem
palavras, e o mais novo partiu com um sorriso nos lábios e o coração mais leve,
deixando uma expressão emocionada e satisfeita nos lábios do irmão mais velho,
que continuou parado de frente àquele túmulo, sob a intensa chuva de final de
tarde.
Fim


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