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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
A serpente e a estrela
Olá, leitores,
Mais um capítulo de ASEAE está próximo a ser postado e eu vim dividir com vocês alguns fatos referentes as minhas pesquisas e à trama.
1º Eu gostaria sempre de lembrar que a fanfiction segue a linha do Fantástico, da fantasia, e por isso, não deve ser encarada como verdade histórica. Obviamente, eu faço muitas pesquisas e tento encaixá-las dentro do clima que quero, mas até mesmo essas fontes históricas são utilizadas misturadas com o fantástico.
2º A realidade é o seguinte: alguns personagens na trama, por mais que os amemos, estão ali para fazer figuração. Eu comecei a história achando que teríamos três casais importantes: Ikki x Shaka, Aiolia x Mu e Máscara da morte x Afrodite. Hoje há insinuações de outros casais, mas não sei realmente se desenvolverei aprofundadamente esses outros romances ou irei apenas citá-los. Mas lembrem-se, quanto mais casais, mais difícil é terminar a história :D
3º e último: Todo escritor gosta de ter sua obra reconhecida, por mais modesta que ela seja, então COMENTE! Se estiver satisfeito com a trama, COMENTE! Se não estiver satisfeito, COMENTE! Se viu algum erro, ortográfico, gramático, de continuidade, mensagem subliminar, COMENTE! Se achou tudo lindo e quer eleger a autora presidenta do Brasil COMENTE também!
Há muitas pessoas que acompanham a história, mas nunca deixou um comentário. Sei que nem sempre estamos no espírito para isso, mas creio que numa fic longa, dá pra deixar pelo menos um comentário dizendo o que acha.
Sei que pode parecer apelativo, mas seu comentário, sua recomendação, seu reconhecimento são nossos únicos ganhos por algo que fazemos com muito amor. Então lembre-se, salve as foquinhas!
Beijos a todos e obrigada sempre àqueles que dão um jeitinho de deixar carinho para essa autora.
Agora vou colocar aquela parte gostosa de imagens que garimpei na net. ATENÇÃO! As imagens não me pertencem e não divulgo com nenhum fim lucrativo. CRÉDITOS TOTAIS AOS ARTISTAS
que as criaram.
Primeiro a imagem da bela ilha de Lundi, posto avançado da Babilônia:
Uma imagem do grande império entre rios:
E mais uma imagem sexy de um dos nossos personagens:
Lindas imagens, não?
Beijos a todos e até a postagem!
Sion Neblina
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Intense Rain - Oneshot
As imagems não me pertencem
e sua divulgação não tem fins lucrativos.
Créditos totais ao artista
Intense Rain
Oneshot
Fandom: Saint Seiya
Couple: Ikki x Shun
Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer
Fernando Pessoa
Chovia como há muito
tempo não se via na Grécia e por isso as pessoas se protegiam em suas casas,
deixando tudo ao redor vazio, inclusive o santuário da deusa Athena. Aliás, há
muito tempo que aquele lugar mais parecia um castelo abandonado, destituído de sua
gloria antiga em que guerreiros desfilavam em trajes militares o tempo todo. O
santuário não era o mesmo há muitos anos. Diversos anos desde a última grande
guerra, a guerra em que o mundo foi partido.
Não que houvesse uma
decadência real, era somente uma impressão, uma sensação ao caminhar por
aquelas ruas desabitadas, solitárias. Tão solitárias quanto o homem que as
atravessavam e adentravam aquele lugar sagrado e que cheirava a morte.
O homem que agora
estava parado mirando um túmulo do gigantesco cemitério participara da última
guerra e jurara nunca mais participar de nenhuma, em memória àqueles que se
foram. O túmulo que ele olhava naquele momento era simplesmente simbólico, já
que nada restara dos guerreiros dourados que lutaram naquela guerra.
Tornaram-se pó de estrelas, um pensamento no vazio universo e deveriam
descansar naquele momento em algum lugar das Ilhas Afortunadas.
A chuva continuava
enquanto ele observava a lápide vazia e tentava achar nela alguma
representatividade que o fizesse viajar de tão longe todos os anos para prestar
aquela homenagem.
Ajoelhou-se, colocou o
pequeno vaso com um bonsai e uma estátua de Buda sobre o túmulo e tentou
imaginar qual o tipo de prece que faria num momento como aquele. Não encontrou,
então se ergueu novamente, vazio, e ficou observando o túmulo, sentindo a chuva
que escorria por seus cabelos e pelo casaco que vestia.
— Nunca imaginei que viesse
aqui todos os anos acariciar um túmulo vazio. Ele faz tanta falta assim?
A voz continuava igual.
O timbre, pois a entonação sarcástica quase o fez pensar que pertencesse à
outra pessoa. Fechou os olhos por um tempo, tentando não demonstrar o quanto
aquele encontro fatal e talvez inevitável o afetasse.
— Faz parte da nossa
cultura render homenagens aos mortos. — Respondeu simplesmente.
— Você nunca se
importou com isso. Bem, mas eu sei que sempre vai visitar a ilha submersa onde descansa
a tal menina. Agora faz o mesmo com um túmulo vazio no santuário.
— Então não deveria
estar surpreso. — Respondeu mais ríspido do que gostaria.
— Não estou surpreso.
Isso não me deixa surpreso, apenas triste. Triste por saber que ele foi tão
importante para você.
Ikki se calou por um
tempo, crispando os lábios, tentando imaginar o que dizer. Não podia negar que
amara demais, amara sem limites o homem que não descansava naquele túmulo. Mas
isso não tinha o significado excludente que aquele homem que estava parado
agora ao seu lado pensava ter.
— Você sempre soube a
exata importância que ele teve para mim, Shun.
— Talvez eu preferisse
acreditar que não. Que não me deixou por ele...
Aquela velha história.
Por que as pessoas gostam de sacudir as velhas correntes, despertando fantasmas
já adormecidos? Por que isso num dia chuvoso de setembro?
— Eu não o deixei por
ele... — Ikki murmurou, sem coragem de mirar o irmão. Há tantos anos não o via,
não o queria ver, não queria relembrar, despertar velhos e incompreensíveis
sentimentos.
O outro suspirou e mesmo
que não o olhasse, o mais velho percebeu o curvar de um sorriso amargo nos
lábios finos e bonitos. Ainda se lembrava do primeiro beijo. Por que deixara
aquilo acontecer? Talvez simplesmente porque Shun queria, e ele nunca fora
muito bom em negar alguma coisa a ele, mas também talvez porque ele próprio quisesse,
porque não o visse somente como seu irmão há muitos anos... Ou talvez fosse uma
maldição como ele próprio dissera dias depois, fazendo o irmão chorar e
sentindo-se miserável por tal crime.
— Na verdade eu não entendo
seus motivos. — Shun o libertou das suas lembranças, levando-o a crer que ele
acreditara em suas palavras.
— Claro que entende,
aquilo era errado, somos irmãos.
O mais novo riu com
mais amargura que divertimento.
— Ah, Ikki, essa
questão de sangue tinha mesmo tanta importância? Crescemos longe um do outro,
sonhando um com o outro, querendo a presença um do outro... Acho natural que
nossos sentimentos se confundissem, não?
— Falou certo, foi uma
confusão. Não era real.
— Para mim foi.
Agora foi a vez do
moreno sorrir com certo sarcasmo amargo.
— E foi por isso que
menos de um mês depois você já estava na cama do Pato?
— Nunca fui igual a
você e sua necessidade de solidão. Eu precisava de alguém, precisava de um
ombro, de um corpo, de carinho. Você não tem direito a me julgar, não foi
exatamente o que também vez? Às vezes eu duvido de que sejamos mesmo irmãos,
Ikki. Somos completamente diferentes um do outro.
— Sim, eu sei. —
Lacônico, amargo.
Silêncio. Apenas o som
da chuva que cantava a música daqueles 12 anos de distância.
Silêncio.
Só silêncio e mágoa.
Shun mirou a lápide e o
pequeno bonsai levado por Ikki com um misto de respeito e desprezo.
— Talvez ele fosse meu mestre
se houvesse sobrevivido...
— Não o coloque nesse
diálogo, Shun, estou avisando. — Disse sério, em advertência.
— Você chamou o Hyoga
para nossa conversa, por que não posso chamar seu amante também? O que faz dele
tão sagrado, tão especial?
O ciúme era evidente naquelas
palavras, e Ikki sentiu-se triste. Sentiu-se derrotado por ter causado tantas
dores ao irmão, por tê-lo deixado sozinho nos momentos que ele mais precisou,
por tê-lo feito odiar Shaka sem que houvesse nenhum motivo para isso.
— Ele nunca foi meu amante.
— Confessou.
Aquela afirmação
pareceu confundir o mais novo e ele recuou um passo. Ikki o olhou pela primeira
vez naquele diálogo, embora um breve olhar, e não soube se o que ele tinha nos
olhos eram lágrimas ou chuva.
— Ele era um asceta, um
iluminado. Eu era sujo demais para tocá-lo.
— Mas você o quis...
— Sim.
— Muito?
— Muito, Shun. —
Confessou num suspiro. Era o que ele queria.
O mais novo mordeu os
lábios e escondeu uma expressão dolorida, voltando a encarar o irmão em
seguida.
— Você me fez pensar
que foram amantes por todo esse tempo... Por quê?
— Era uma forma de mantê-lo
longe de mim. — Afirmou com um meio sorriso melancólico. — Mas isso não
significa que eu não o tenha amado. Eu amei Shaka profundamente.
— Como nunca me amou...
— O amei do mesmo
jeito, Shun, talvez mais, não sei. Só que eram sentimentos diferentes. Eu
simplesmente não podia ficar com você.
— Por quê?! E não diga
que é por sermos irmãos! Isso é ridículo! — Shun explodiu e depois riu, sem
jeito, como quem não aceita perder o controle. Não depois de tanto tempo, e
naquele momento Ikki o achou extremamente parecido com o homem que visitava e
que não jazia naquela sepultura.
O cavaleiro de fênix
sorriu e baixou o olhar para a grama que era inundada por aquela chuva. Sim,
era por isso. Isso para ele era o suficiente; o que parecia não ser nada para o
mais novo, para ele era tudo. Uma ligação de sangue. Um sacramento inviolável.
Aquilo era uma heresia, por que será que Shun não percebia isso?
Quis gritar,
explicar...
— Me desculpe... — Mas
estas foram as únicas palavras que saíram dos seus lábios. Não adiantava querer
falar agora; não agora depois que tudo havia se perdido.
Shun sorriu com o canto
dos lábios novamente.
— Desculpas só não
bastam, Ikki. Eu te falei isso daquela vez e falo agora novamente. — Suspirou
cansado. — É estúpido estarmos aqui...
— Bom ponto, o que você
faz aqui? — Virou-se e finalmente encarou os olhos verdes do irmão. Acabou
paralisado por aquele olhar, o olhar da sua infância, o olhar que simplesmente
o desarmava de todas as maneiras possíveis. O olhar da felicidade inocente do
passado; antes de tudo ser mágoa, tudo ser bruma fria de fim de outono.
Shun ficou um tempo
gigantesco sem responder àquela pergunta. Olhava-o como se tentasse desvendar
todos os mistérios daqueles vários anos de ausência. Como se quisesse uma
explicação ou simplesmente um abraço, uma palavra, um gesto que levasse a
magoa, que a lavasse, limpasse como aquela chuva intensa fazia com a Grécia
naquele momento.
Mas ele simplesmente
mexeu nos cabelos. Sim, moveu a franja castanha que se grudava à sua testa
pálida e murmurou algo inaudível, dando as costas ao irmão e se afastando.
— Shun. — Ikki
interrompeu seus passos e depois disso ficou mirando as costas deles. Pensando
nos anos que os separavam; nas dores; nas lutas...
Ele estava mais alto,
mais confiante. Não parecia mais o menino trêmulo que tinha medo do escuro e
nem o adolescente inseguro que buscava seus braços, sua boca...
Ele estava mais
parecido com o homem que não jazia naquela sepultura do que poderia supor. Mas não
diria isso a ele, isso o deixaria irritado, enciumado com certeza. Sorriu
levemente, sentindo uma emoção estranha no peito, um leve cintiliar no cosmo...
Talvez fosse alegria... Esperança.
12 anos. 12 anos são
suficientes para terminar um sentimento como aquele? Quantas bocas Shun deveria
ter beijado depois da sua. Quantos amantes tivera depois de Hyoga? Engraçado
pensar no Pato. Pensara que os dois ficariam juntos para sempre. Cada um
matando a carência patológica que o outro sentia; um a ausência do irmão, o
outro a ausência da mãe. E isso não lhe parecia ruim. Um cuidaria do outro. Seria
bom. Mas não foi assim.
— Eu sabia que você
estaria aqui. — Ele respondeu depois de muito tempo. Sua voz trocando acordes
com a chuva torrencial. Estranhamente, não havia raios e trovões, só aquela
canção soturna dos pingos de água dançando por tudo ao redor.
O mais velho sentiu o
coração retumbar no peito e depois cair num baque surdo, rasgando-se em dor, em
saudade, em desencanto. A esperança e a leve alegria descendo como a água por
um córrego em direção ao mar bravio.
— Depois de tanto
tempo... – murmurou.
— Nós dois ainda
visitamos túmulos, Ikki...
Shun falou e sorriu,
olhando-o envolto em chuva e saudade.
Ele pensou em partir,
mas a voz do irmão novamente o interrompeu.
— Ei!
— Fale.
— Sinto sua falta.
— Eu também, Ikki.
Encararam-se mais uma
vez no silêncio melodioso da chuva. A emoção gritava nos olhos de ambos como um
lago agitado de inverno que se cobria de uma pequena camada de gelo, uma
pequena camada de civilidade necessária para não se entregar às emoções
incandescente que ainda vibravam em algum lugar dentro deles.
Pensaram que o que
sentiam era como aquela chuva intensa, um temporal incessante que nunca
deixaria a alma, que manteria aquela melancolia de saudade do que poderia ter
sido, mas não foi...
Era como morte na infância,
um sonho interrompido com tristeza... Mas que ainda é sonho.
Shun aproximou-se,
chegando bem perto do outro e não soube se o que viu em seus olhos foi lágrima
ou chuva. Talvez fossem os dois... Eram olhos de tormenta e paraíso.
— Eu ainda amo você...
Ikki sorriu, um sorriso
que mesclava dor, desespero, alegria. Tocou o rosto do mais novo com o
polegar... A pele fria, molhada...
— Eu sempre amei você,
Shun.
Abraçaram-se com força,
envoltos naquela intensa chuva de fim de tarde. Um simples fim de tarde chuvosa
em que as pessoas se escondem dentro de suas casas, e não sabem que
civilizações passadas são demolidas em abraços, que dores são acalantadas por
um simples toque ou por mínimas palavras.
“Eu sempre amei você.”
Aquilo era o suficiente para que seu coração se curasse, se não do amor
impossível, ao menos da mágoa.
“Eu também vou te amar
para sempre, Ikki.” Shun pensou, mas não disse. Era apenas isso.
Eles se afastaram sem
palavras, e o mais novo partiu com um sorriso nos lábios e o coração mais leve,
deixando uma expressão emocionada e satisfeita nos lábios do irmão mais velho,
que continuou parado de frente àquele túmulo, sob a intensa chuva de final de
tarde.
Fim
domingo, 4 de janeiro de 2015
"Quando a noite vem" - ONESHOT
A imagem não me pertence - Créditos ao artista.
Sinopse: Uma visita esperada ao templo
de virgem. Um intenso momento antes do fim.
FANDOM: Saint Seiya
Paring: Ikki x Shaka
Gênero: Romance Yaoi
Songfic: Música: "Tatuagem" de Chico Buarque
Quando
a noite vem
Oneshot
A noite estava escura, funesta
como o gotejar das lágrimas da estátua de Athena. Alguns diriam que aquilo era
efeito da umidade que cercava aquele inverno grego, mas para aqueles que
conheciam os deuses, aquele gotejar no mármore frio era fruto das lágrimas da
deusa impotente que esperava o destino de mártir; como toda a humanidade.
O selo havia se rompido, as
estrelas malignas estavam se agrupando e logo Hades seria despertado para uma
nova guerra santa. Como sombras no caos, o inimigo se movia, fortalecia-se e
estava pronto para atacar. Ataque que aconteceria em breve. Mas tinha data
certa.
O homem que observava os últimos
raios de sol daquele dia histórico sabia o momento exato e sabia de todas as
danças que fariam parte daquele baile mitológico. Ele sabia que logo seria
exigido de si algo muito importante. Estava preparado. Preparou-se para isso
desde o seu nascimento, pois sempre esteve cônscio do dia da sua morte.
A morte que o amedrontava quando
criança já não tinha nenhum efeito sobre ele. Agora, ela apenas despertava-lhe
certo interesse filosófico, pois talvez fosse a única coisa que ainda não
houvesse experimentado.
A única? Não.
Havia algo que ele ainda não
havia experimentado, embora sucumbisse a esse algo há algum tempo. Como tudo em
sua vida, ele preferia os questionamentos às experiências reais, mas essa
experiência real também possuía o momento certo de acontecer, e ele esperava por
ela. Por isso, ao escutar o tilintar do metal da armadura nas pedras do seu
templo, ele não se sobressaltou, assim como não se sobressaltou ao sentir
aquele cosmo quente e agressivo. Ele nunca abandonava aquela agressividade, era
realmente algo inato à personalidade daquele homem destemido, um dos poucos que
não o temia, ao menos não o temia da forma que as outras pessoas o temiam,
embora o temesse por outros motivos que para ele também era muito fácil de
captar.
O cavaleiro parou no meio do
templo. O guardião não se voltou, continuou a admirar a paisagem, mesmo que
mantivesse os olhos estrategicamente fechados.
– Não é um bom momento para
visitas – ele disse apenas, enquanto o outro cavaleiro parava.
– Não é uma visita. – Replicou a
voz grave do outro, mas não com a agressividade corriqueira, havia certa
nuance, bem tênue, de melancolia, que o cavaleiro de ouro sentiu por ser aquele
que dominava muitos dos mistérios, embora não todos.
– E o que é então?
– Tenho certeza que sabe por que
estou aqui. – Insistiu o jovem cavaleiro sem se perturbar com a voz calma e
indiferente do outro.
– Sim, eu sei. Também sonhei
contigo.
– Sim, eu sei. Os sonhos
começaram há algumas semanas. Sei que logo a guerra se iniciará, mas não foi
apenas com isso que sonhei.
O cavaleiro de ouro silenciou e
mergulhou nos sonhos que povoavam sua mente nos últimos tempos. Uma ave de fogo
que logo se transformava num ser zoomórfico e um deus de pele azul. Depois tudo
se desfazia e novamente a ave de fogo o envolvia e queimava sua pele,
deitando-se sobre ele como se numa cúpula mística. Ele entrava em êxtase e
então... morria.
Voltou-se finalmente para o outro
e caminhou até ele, fazendo o metal da sua armadura também soar em contato com
as pedras.
O mais novo o encarou por um tempo,
e ele também o encarou, embora continuasse de olhos fechados.
– O que diziam teus sonhos? –
indagou o cavaleiro mais velho.
– Diziam que eu deveria estar
aqui. Nesse momento. E que não teríamos um futuro, não teríamos nada além desse
momento para contar aqui ou na eternidade. Mas seríamos uma marca eterna um
para o outro. Uma marca na carne e no karma.
O indiano continuou parado, os
olhos ainda cerrados, fortalecendo a expressão de asceta. Uma marca eterna, uma
tatuagem forjada pela força dos cosmos de ambos.
Ele então estendeu a mão ao outro
cavaleiro que a tomou com força e o puxou para si, fazendo o metal das
armaduras se chocarem e produzirem mais sons.
O beijo foi intenso, cheio de uma
paixão refreada por muitos anos e que ambos sabiam que deveria explodir para
depois se extinguir... Para sempre...
Quero ficar no teu
corpo
Feito tatuagem
Que é pra te dar
coragem
Pra seguir viagem
Quando a noite vem
E também pra me
perpetuar
Em tua escrava
Que você pega, esfrega
Nega, mas não lava
Em tua escrava
Que você pega, esfrega
Nega, mas não lava
Línguas e lábios se tragaram com
uma fome nunca antes sentida, mas o cavaleiro mais velho se afastou, embora
continuasse próximo, tomou-lhe a mão novamente e o levou para dentro do quarto.
Os sons agora eram das armaduras se descolando dos corpos e em seguida as roupas
iam para o chão para que as peles pudessem se encontrar num abraço de fogo,
ímpeto incontrolável de uma paixão antiga, por anos dormente em corpos jovens,
mas cheios de cicatrizes reais e emocionais feitas cruelmente por uma vida de
dor, renúncias e medos.
O loiro levou a mão ao queixo do
outro e eles se encararam mais uma vez, os lábios próximos.
Quero brincar no teu corpo
Feito bailarina
Que logo te alucina
Salta e se ilumina
Quando a noite vem.
O moreno sentiu os lábios
tremerem de uma emoção genuína e tépida. Geralmente, não se deixava vencer por
tais sentimentalidades, mas aquela era sua hora, o tempo preciso daquele
sentimento grandioso que nunca ousou confessar.
– Abra os olhos... – foi um
sussurrou, e ele viu a hesitação do outro, mas apenas o segurou mais forte nos
braços. – Eu posso suportar...
E então o mais velho o obedeceu,
exibindo os orbes azuis que fez tudo ao redor se agitar, algumas coisas se
partirem por mais que ele tentasse controlar o impacto. O moreno gemeu e mordeu
os lábios, mas não o soltou, e depois que tudo serenou, o loiro o encarou
novamente, vendo o filete de sangue que descia por seu queixo. Não se
desculpou, não falou nada, apenas colheu com a língua o sangue e voltou a
beijá-lo ardentemente.
E nos músculos exaustos
Do teu braço
Repousar frouxa, farta
Murcha, morta de cansaço
Peles, pelos, lábios... Laços. A
intensidade dos toques, das sensações, do reconhecimento...
Não existia amanhãs, eles sabiam,
não existiam possibilidade de juras e promessas. Nunca existiram. Havia apenas
duas massas de desejo quase incandescente... E no futuro, uma missão.
Quero pesar feito cruz
Nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem
Quero ser a cicatriz
Risonha e corrosiva
Marcada a frio
Ferro e fogo
Em carne viva
Não houve palavras. Logo eles se
erguiam da cama, recompuseram-se. Shaka foi o primeiro a deixar o quarto, indo
para seu jardim, onde se sentou em posição de lótus, envolvido por seu cosmo
poderoso. Antes de deixar a casa de virgem, Ikki ainda o mirou por um tempo,
algo indefinido dentro de si; indefinido, mas satisfeito. Era apenas isso que
tinha que pensar, que aquela fome, aquela ânsia estava satisfeita, mesmo que
estivessem a alguns segundos do fim.
Virou-se e partiu da casa de
virgem. Os primeiros espectros chegariam ao santuário, minutos depois.
Corações de mãe, arpões
Sereias e serpentes
Que te rabiscam
O corpo todo
Mas não sentes
Fim
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