Feliz 2014, leitores lindos do blog da Sion!
Esse ano, começo com novidades. Eu tinha dito uma vez que postaria aqui no blog minhas oneshots, e por isso venho para mais uma postagem, dessa vez com uma oneshot de um casal que eu gosto muito e que tanto carece de fanfiction com eles que é Aldebaran e Mu. Espero que gostem.
Que o ano novo traga muitas alegrias, sucesso e fic para todos nós!!
Boa leitura e feliz 2014!!!
Casal: Aldebaran de Touro x Mu de
Áries
Observações: A letra da música
que aparece na fic pertence a Jorge Vercilo (Raios da manhã), mas a fanfiction
não é uma songfic. Texto não revisado. Essa fic cita acontecimentos do Episódio
G e da Saga da Hades.
As imagens que servem para ilustrar a fic não me pertecem. Crédito total à artista que creio ser a Tanko nas duas fanarts.
Boa leitura!
Sion
Anjo de Vidro
Por Sion Neblina
Romance – Yaoi
Ah! solidão
Muralhas que a distância ergueu
São pontes que a esperança constrói
Nos raios da manhã
Muralhas que a distância ergueu
São pontes que a esperança constrói
Nos raios da manhã
**Solidão**
O vento assoviava entre as
montanhas como um gemido de vida naquele local coberto de morte. O homem estava
parado no alto da torre, envolto em vestes carmesins que contrastavam com sua
pele clara e fria. Seus olhos verdes miravam a paisagem noturna brumosa... Era como se ele ouvisse o canto dos mortos que jaziam naquele
abismo.
Sua única sensação era a de um
vazio imensurável desde que ele partiu. Ele, o homem que tão abnegadamente
cuidou das suas feridas, do seu corpo machucado, depois daquela batalha em que
quase perdeu a vida. Possuía saudade das mãos grandes que o tocaram com tanta
delicadeza e carinho como se ele fosse um tesouro e não um poderoso guerreiro.
“Você parece um anjo de vidro, Mu... Sei que é forte, mas parece
tão frágil e é tão suave...” Dizia a voz grave e jovial enquanto o levava para
o quarto.
Mu não se lembrara da sua voz
durante muito tempo, mesmo tendo sido ele, seu único companheiro na época de
infância no Santuário. Então por que agora aquela voz parecia estar consigo a
vida toda? Agora se lembrava da voz, das mãos; grandes mãos que deslizaram por
sua pele e cuidaram gentilmente dos seus ferimentos, sem desconfiar da luxúria
que aqueles toques despertavam no corpo lacerado. Mãos que espalharam óleos e
unguentos para curá-lo com uma devoção impressionante, com uma delicadeza que
ninguém julgaria que aquele colosso tivesse.
O cavaleiro de Áries abraçou-se
mais ao próprio corpo. A noite parecia ficar mais fria enquanto as recordações
daqueles curtos dias o assaltavam. Depois de tantos anos de solidão, foi tão
terrivelmente bom ter alguém com quem falar, com quem conversar por mais banal
que fosse o assunto. Todavia, foi um ópio momentâneo, e ele sabia: sofreria
horrivelmente depois.
E ainda assim, permitiu que ele
se aproximasse que fizesse parte da sua vida mesmo que por míseros dias...
Mu suspirou triste e saiu de onde
estava. Com certeza a luta no santuário seria difícil e... Poderia perdê-lo. Perdê-lo
sem ter a chance de dizer que o amava, sim o amava! O amou naquele pouco tempo
em que ele cuidou das suas feridas, o amou enquanto suas fortes mãos passeavam
por seu corpo e talvez...
Talvez o amasse bem antes, quando
ainda eram crianças perdidas naquelas ruínas, sem nenhum conhecimento da
maldade ou do amor.
O descendente de Lemúria voltou
para sua cama, que era tão imensa e fria quanto à cordilheira do Himalaia, e
chorou. Deixou que suas lágrimas cristalinas se derramassem, como nunca
permitiu enquanto aquelas mãos grandes tocavam seu corpo dilacerado, e ele
aceitava a dor com uma dignidade estóica, embora algumas feridas houvessem o
atingido até os ossos.
Mu gostava de fechar os olhos e
tentar sentir as mãos deles em sua pele delicada novamente, agora havia apenas
as cicatrizes e a ausência...
Meses se passaram, soubera que as
batalhas no santuário haviam terminado. Seu corpo quase não tinha mais sinais
da luta, e ele foi presenteado com algo insólito, uma criança a quem deu o nome
de Kiki. A chegada de Kiki alegrou aquela cordilheira fria, e ele se viu nas
funções de pai o que ajudava a aliviar sua saudade do amigo.
Quando o verão chegou, eles
plantaram uma horta e um jardim. A vida se tornara mais doce com o riso
constante de Kiki, mas algo lhe dizia que tudo era momentâneo. A vida de
cavaleiro exigia renúncias constantes e, mesmo que agora ele fosse menos que um
desertor, nada o faria deixar de acreditar que ainda era um cavaleiro de Athena.
** Guerra**
Algum tempo depois, ele soubera
da história de Saori Kido, a menina que se dizia Athena, e seus protetores. Os
cavaleiros de bronze estavam a serviço dela, e o Santuário não admitiria tal
afronta. Algo dentro dele reverberou ao saber disso. Era como se a verdade
finalmente houvesse decido seu manto sobre a lendária irmandade.
Tivera a chance de conhecer
Shiryu, cavaleiro de bronze de Dragão e discípulo de Dohko, o mitológico
cavaleiro de libra. Aquele jovem cheio de energia e dedicação lhe deu a certeza
que precisava para voltar ao Santuário e lutar pela justiça se fosse preciso.
Mu não foi compreendido quando
ficou ao lado dos cavaleiros invasores, permitindo a passagem sem culpa por sua
casa. Mas no momento que seus olhos se encontraram com o olhar do seu amigo,
algo em seu íntimo acendeu como chamas numa grande pira.
Ele sorriu abertamente como se a
alegria o brindasse de primavera ao encarar o rosto do outro.
— Seja bem vindo de volta ao lar, Mu de Áries...
Os olhos de Áries não conseguiam
largar a expressão satisfeita do rosto do Touro. A batalha havia cessado e,
apesar dos mortos, eles estavam, momentaneamente,
em paz.
— Obrigado, meu... Amigo — deixou cair sobre os lábios um sorriso
tímido, mas firme.
O Cavaleiro de Touro deu passagem
para que ele adentrasse sua casa. Mu tomou posse do primeiro templo, mirando
com reverência cada canto, lembrando-se da noite em que resolveu deixar aquelas
paredes, vazias.
Ah solidão, a solidão dos montes
gelado, o canto dos mortos. Eram lembranças que montavam uma rede de saudade.
Uma saudade estranha de uma solidão desejada.
Ele sentiu um aperto no peito ao
se recordar daquelas doze crianças do passado, correndo tão livres quanto são
os pensamentos infantis, mesmo que a dor sempre estivesse presente nos
machucados dos treinamentos desumanos. Aquela foi a única época em que eles
puderam se relacionar. Depois disso, tudo se tornou solidão e distância,
militarismo exacerbado e dor.
Aldebaran lhe dera uma flor certa
vez, quando eram muito meninos. Uma bela flor que durante muito tempo foi
conservada pelo cosmo do jovem cavaleiro de Áries e que ainda estava em Jamir.
O próprio Mu acendeu os archotes
do seu templo e mirou a noite escura em que uma brisa lúgubre soprava. Ficou um
bom tempo prestando atenção à escuridão e ao canto distante da marcha que
levava os corpos dos mortos ao grande cemitério. Era uma ocasião triste para um
retorno. Mas se não houvesse a guerra, ele não retornaria.
Depois de um longo tempo, ele
despiu-se da armadura e, somente vestido numa longa túnica de dormir, o
cavaleiro de Áries começou a entoar uma canção aprendida na infância com seu
mestre enquanto observava as estrelas pela janela.
Shion... Por que não acreditei em
minha intuição? Por que não confiei em tudo que tu me ensinaste?
As lágrimas cristalinas caíram
amargas, cessando a canção e banhando o rosto do jovem cavaleiro. No fundo de
sua alma, ele sabia que ali não era seu lar, nunca foi e nunca seria. Melhor
permanecer na solidão inóspita de Jamiel. Lá, ao menos lá, era o rei de sua
terra, era dono da sua vida. Lá, não era apenas um soldado, embora soldado
fosse. Lá, ele era alguém. Apenas alguém.
** Anjos quebrados**
O amanhecer foi triste e confuso.
Havia muitos feridos, muitos. E Mu ajudou a todos como podia, mas sentia a
resistência de alguns. Desde antes do seu retorno, ele sabia que não seria
facilmente aceito. Muitos o julgavam um desertor e não confiavam nele. Dentre
esses, talvez Shaka de Virgem e Milo de Escorpião fossem os mais esquivos. Mas
agora, depois de tudo, inclusive depois do mais poderoso cosmo entre os
defensores de Atenas ter precisado de sua ajuda — “Preciso trazer um homem comigo”, ele dissera. O que aquilo
significava ou significaria? —, Áries não esperava que esse mal-estar
permanecesse. Havia respeito. Sim, isso era o máximo que poderia dizer haver:
respeito. Aceitação. E vergonha.
Todos pareciam um tanto envergonhados por
terem acreditado na farsa de Gêmeos e com isso, a presença daquele que nunca se
enganou era como uma bofetada certeira em seus santos egos.
Shaka de Virgem mostrava-se
serenamente analítico.
Milo de Escorpião
significativamente altivo e relutante.
Aiolia de Leão aliviado e
revoltoso.
Talvez apenas Aldebaran se
mostrasse verdadeiramente tranquilo com tão intensos acontecimentos, e tal
tranquilidade chamou atenção do cavaleiro de Áries de forma melancólica, porque
ele não conseguia entender e nem muito menos aceitar que o amigo se comportasse
como tal leveza diante de tamanhas atrocidades e blasfêmias.
“Mu, eu apenas entendo que lamentar e sofrer por meus erros não
consertará nada. Eu quero ser útil, continuar sendo um bom cavaleiro, o senhor
da casa de touro, e lutar para que mais nenhum mal domine o santuário. Essa é a
minha função e é o que cumprirei até o fim da minha vida. As lágrimas, deixo
para aqueles que perderam bem mais que honra nessa batalha.”
Quem seria aqueles que perderam
bem mais que a honra nessa batalha? Mu se perguntava, e sua sensibilidade lhe
respondia através dos olhares. Dos fortes olhares que alguns cavaleiros lançavam
uns aos outros.
Shaka de Virgem perdeu suas
crenças. Ele fora derrotado. De certo modo fora. Aquilo foi um ataque mortal ao
seu orgulho e derrubou sua sensação de poder, a sensação de que era um deus,
mas... Havia algo mais em tudo. Havia algo que Mu não conseguia ler em suas
atitudes e que ele só saberia muito tempo depois. Algo mais que a mão do avatar
de Vishnu foi ferido pela pena da fênix.
Milo de Escorpião perdeu o melhor
amigo – alguns boatos sugeriam que Camus de Aquário fosse mais que isso para o
defensor do oitavo templo. Nunca se saberia – e amargava a culpa, uma culpa que
a razão dizia não ser sua, mas que a alma passional o acusava e prendia com
grilhões de remorso profundos.
Aiolia de leão torturava-se com o
alívio de ter o nome do irmão finalmente limpo do passado vil de traidor do
Santuário e, ao mesmo tempo, sofria por até mesmo ele ter duvidado da conduta
do cavaleiro de sagitário.
Mu observava todos esses
comportamentos e sensações de forma calma e triste. Sem interrupções, sem
conselhos, sem sentimentos.
Anjo de vidro, Aldebaran o
chamara certa vez e agora, olhando para todos aqueles homens exaustos e
sofridos, todos tão jovens e presos a tantas responsabilidades; mirando os
cavaleiros de bronze, crianças que convalesciam tão feridos, Áries imaginava
que não apenas ele, mas que todos ali eram anjos. Anjos sofridos e mutilados
por uma missão atroz: proteger a humanidade.
Anjos de vidro. Anjos quebrados.
Dias se passaram, e Mu seguia
sempre a mesma rotina de à noite se recolher ao seu quarto e chorar como não
era capaz de fazer à luz do dia. Somente na solidão do seu antro, ele era capaz
de fraquejar. Ele que agora era o representante do grande mestre — Dohko de
Libra, que continuava a vigiar a cachoeira de Rozan — não podia fraquejar, não
podia se mostrar tão frágil. Os guerreiros de Athena deveriam demonstrar uma
força tanto física quanto de caráter que fosse sobre-humana.
Quanta ilusão
Saudade tem limite, eu pensei
E quando creio que ela acabou
Me leva mais além
Saudade tem limite, eu pensei
E quando creio que ela acabou
Me leva mais além
**Anjo protetor**
E assim, apenas as noites insones
sabiam da dor do guardião da primeira casa. Ao menos, era isso que Mu pensava
até que numa daquelas noites sombrias e vazias, o cavaleiro de touro foi
visitá-lo.
Áries estava sentado na cama, de
costas para a porta e apesar de sentir-lhe o cosmo não se virou, concentrou-se
em tentar afastar as lágrimas que eram provas indicáveis da sua “fraqueza”.
— Mu...
A voz grave chamou-lhe o nome com
carinho e aquilo foi como uma carícia em seu corpo cansado. Carícia que Touro
não se atreveria a fazer sem que houvesse o expresso consentimento do outro
cavaleiro.
— Aldebaran — Mu disse baixinho, pois sua voz era
caracteristicamente mansa e calma —, eu acho que nunca o agradeci por tudo que
fizeste em Jamiel. Foste um grande amigo...
— Sou um grande amigo — o brasileiro completou também de forma
tranquila.
O jovem lemuriano virou levemente
o pescoço para mirar o outro. As chamas dos archotes iluminavam o rosto
anguloso do Cavaleiro de touro e não disfarçavam o sorriso que sempre estava
presente em seus lábios.
— Eu sei... — murmurou Áries.
— Então por que todas as noites, se tranca aqui para chorar? Por
que não me procurou esse tempo todo? Eu poderia ser seu amigo, se quisesse.
Havia um quê de decepção na voz
do outro que magoou profundamente o coração de Mu. Não mágoa por Aldebaran,mágoa
por si mesmo. Havia se fechado tanto por todos aqueles anos, fugido tanto do
contato humano que talvez estivesse inábil para o convívio. Mesmo que o
quisesse. Mesmo que desejasse, como desejava, se aproximar novamente dele.
— Desculpe-me... —murmurou dolorido e baixou o olhar, deixando as
lágrimas pingarem no chão de pedra. Foi quando sentiu mãos fortes e calejadas
massagearem seus ombros.
O discípulo de Shion não olhou para trás e nem
repeliu o toque. Toques com os quais havia sonhado por tanto tempo que já lhe
eram familiares e que aquecia sua alma de forma tão abrasadora que era capaz de
levar toda dor e solidão para vias inacessíveis à sua psique.
Aldebaran sentou-se ao lado de Mu
e deixou que seu braço forte, envolvesse os ombros delicados do outro e o
levasse para mais perto de si. Mu não impôs resistência, deixou-se abraçar e
soluçou no peito do amigo até que seu pranto cessou.
As lágrimas foram embora e deram
lugar às lembranças. Às lembranças dos sonhos que tivera, dos sonhos incastos
que tivera com o brasileiro. A pele do lemuriano arrepiou-se com o contato
íntimo da pele quente e amorenada do cavaleiro de touro, e ele se afastou, um
tanto trêmulo, mas com a mesma tranquilidade de sempre.
— Está tard-
A voz de Mu desapareceu quando
ele viu Aldebaran se inclinar e o beijar no flanco, enquanto as mãos afastavam
seus cabelos claros, expondo o pescoço branco e delicado. Apesar de surpreso, Áries
não evitou o beijo suave que não parecia conter nada de luxúria e que foi
morrer em seus lábios.
O brasileiro se afastou e seus
olhos castanhos invadiram o olhar claro de Mu.
— Não quero deixá-lo sozinho. Por favor, Mu, aceite minha
companhia.
O defensor da primeira casa
sentiu uma nova lágrima ondular por seu rosto. Seu olhar envergonhado desceu
para as próprias delicadas mãos que nunca estiveram tão pálidas.
— Perdoe-me a fraqueza... — ele
pediu dolorido.
— Aceite a minha companhia — o
guerreiro de incrível estatura reafirmou seu pedido.
Os lábios do lemuriano tremeram,
mas ele sabia que não poderia negar-se; inicialmente porque desejava, e depois
porque era impossível resistir ao convite daqueles olhos. Olhos que lhe diziam
que aquele colosso não estava ali para se assenhorear dele, mas, ao contrário,
para servi-lo. Olhos que diziam que ele estava ali para tornar-se eternamente e
irremediavelmente seu escravo. Se ele assim o quisesse.
— Responda-me, Mu — Aldebaran continuou como se o olhar do outro
não dissesse tudo que ele necessitava saber.
Então disse Mu:
— Sim.
O lemuriano sentiu os braços
fortes o alçarem no ar como se ele fosse uma criança. Sentiu-se um pouco
constrangido com aquilo, mas permitiu que seu corpo tão forte e ao mesmo tempo
tão forte fosse levado para a casa de touro e descansado na grande cama do dono
da casa.
Não havia nenhuma lascívia nos
atos e gestos de Aldebaran, havia sim um cuidado imensurável e aquela vontade
de ser útil que ele só vira naquele homem tão poderoso e tão gentil. Talvez
alguns o considerassem um tolo por sua bondade e suas palavras sempre tão
desprovidas de superioridade ou petulância. Talvez alguns o considerassem até
fraco por sua humildade estranhada demais, paradoxal demais para um santo
guerreiro de Athena. Mas Aldebaran era assim, um homem poderoso não só no físico
como no coração. Um homem que não gostava de matar, preferia cultivar violetas,
flores tão delicadas, e cuidar dos amigos feridos... De trazê-los de volta para
casa.
— Ainda bem que o cosmo não pesa — ele comentara na segunda de muitas
noites que levou o santo de Áries para passar dormir em sua cama, sem nenhuma
pretensão.
Ele apenas o deitava em seu leito e o mimava até que o ariano adormecia
ou muitas vezes chorava, sem que ele soubesse o motivo, em seus braços.
A medida que o tempo passava e aquelas noites de cumplicidade se
repetiam, a angústia do lemuriano ia cedendo, e ele se achou firme novamente.
Seguro o suficiente na escuridão da noite para não mais chorar, embora todo o Santuário
ainda carregasse aquele clima funesto de batalhas.
Mu sabia que era sua obrigação
cuidar de todos e defender sua casa, defender o santuário, defender a terra, e
ninguém o veria fraquejar. Quase ninguém.
**Ouvir estrelas**
Era uma noite calma, calma e clara como há muito não se via, em que
soprava uma brisa morna e aconchegante. Mu abriu os olhos na escuridão e
procurou por seu amigo, mas ele não estava no quarto. O jovem de Lemúria se
ergueu e ajeitou a kasaya carmesim que usava sobre o corpo. Seus pés nus
andaram pelo mármore do templo até chegar ao jardim.
Aldebaran estava sentado num dos bancos de pedra e mirava o céu muito
estrelado com uma expressão serena. Seus cabelos negros e longos estavam soltos
e bailavam por seus ombros. Mu se recostou à porta de entrada e ficou o
observando por um tempo, sentindo finalmente uma profunda paz.
— Deba — chamou com carinho o recente apelido que dera ao cavaleiro de
touro.
O moreno lhe pediu silêncio com o gesto. — Ouça, Mu — murmurou ele. —
Pode ouvir?
O lemuriano fechou os olhos e suspirou, ouvindo o soprar do vento nas
plantas do jardim e o sussurro da noite nas ruínas.
— Ouço — ele murmurou.
— Então se sente aqui comigo, venha ouvir outra coisa — disse Aldebaran.
— Venha ouvir as estrelas comigo, anjo.
Mu sorriu e se aproximou, sentando-se ao lado dele. O vento brincou com
seus cabelos quando ele virou o pescoço para encarar o outro cavaleiro.
— Obrigado. Eu não sei como você sabia, mas... — a voz morreu quando a
mão calejada tocou-o com total suavidade a cútis delicada.
— Eu sempre soube tudo de você. Tudo. Não precisa agradecer, ter você ao
meu lado todas as noites foi a minha maior recompensa.
Áries sentiu o coração disparar no peito e um calor subir por seu corpo
chegando ao rosto, então, ele se inclinou levemente e tocou os lábios do amigo
com os seus. Não mais que um toque e afastou-se.
— Eu ainda posso ser seu anjo de vidro, mas tenha certeza que eu não
estou mais quebrado e não vou mais quebrar, graças a você.
O moreno sorriu e o puxou para que descansasse em seu ombro.
E ali, Mu se sentiu em paz, se sentiu completo. Sentiu como se finalmente
estivesse em casa.
**Anjo de cristal**
A brisa noturna continuava a
soprar sobre eles e o olhar do lemuriano caiu sobre uma flor frágil que
balançava numa rocha no jardim entre alguns arbustos.
— Não sei como
ela cresceu ali — Touro disse. — Mas eu a deixei ali porque ela me lembrou
você.
— A mim?
— Sim. Lembrou-me de você em Jamir, no primeiro dia que o reencontrei,
tão frágil em aparência, e tão forte em espírito, tão determinado; pacífico e
resoluto, como essa flor que se dobra ao vento, mas não se parte, resiste com a
mesma suavidade e beleza.
Letamente o rosto do taurino foi se virando em direção ao do ariano. Mu
sentiu os lábios carnudos tocarem os seus e suspirou com o toque reverente.
Percebeu o pousar respeitoso das mãos em seus ombros. O ariano aceitou o
carinho suave e sua pele se arrepiou em reconhecimento às únicas mãos que a
tocaram com aquela intimidade.
Não precisaram dizer nada, Mu não
precisou dizer nada para que os lábios do outro devorassem os dele enquanto o
taurino dobrava completamente o corpo, para alcançá-lo.
Teu amor
É clarão no breu
Eu me sento nas estrelas
E bebo do graal
Um simples mortal
Provando os licores do céu
É clarão no breu
Eu me sento nas estrelas
E bebo do graal
Um simples mortal
Provando os licores do céu
— Tão doce... — Aldebaran murmurou com os lábios ainda roçando os
do outro. Mu se lembrou do orgulho que o homem que o alçava no ar sempre
demonstrou por si.
Um sorriso adornou os lábios
rosados do ariano. Aldebaran voltou a beijá-lo com carinho, desejo e ansiedade
medidas. Não fizemos juras e nem confissões de amor. Sabiam o que sentiam e seus
cosmos se reconheciam. Não careciam de palavras bonitas, somente do toque, da
língua, das mãos que passeavam soltas.
Touro deitou Áries na cama e
prendeu suas mãos no alto, enquanto os lábios grossos percorriam o corpo esguio
inteiro, brincando com a pele em brasa. Um gemido mais alto e rouco escapou da
garganta do lemuriano quando os dentes do ocidental mordiscaram um ponto sensível
e isso incentivou Aldebaran a provar outros da mesma forma.
Meu amor
Eu só sei calar
Quando a voz da tua pele
Me pede assim:
‘ Navega em mim,
Que eu sinto os prazeres do mar’.
O tremor da pele, o calor, a
umidade, os gemidos. Tudo vibrava como uma sinfonia enquanto a aurora rompia a
noite num parto sem dores, trazendo os raios da manhã banhando os corpos que se
amavam.
A sensação única de se saber
amado, desejado, adequado e, acima de tudo, reconhecido por quem era, atingia o
cavaleiro de Áries de uma forma que fazia seu coração retumbar. Ele sempre o
amou, sempre. Amava sua força e sua gentileza, seu desprendimento e seu bom
humor, sua firmeza e seu coração. E Mu também sabia que sempre foi amado,
eternamente amado por aquele homem que agora concretizava aquele profundo
sentimento em seu corpo e que se fundia a si com toda a entrega, com toda a
busca, com todo o seu ser, sem, contudo, perder a preocupação, o cuidado.
Aquele homem que o amava da mesma maneira que cuidara dos seus machucados com
tanta delicadeza que o fazia se sentir realmente um anjo, de vidro não, de
cristal, do mais precioso dos cristais.
Os dedos se engancharam como o
aperto de tentáculos agressivos e não se desuniram no tempo em que os corpos
bailavam ao mesmo ritmo, e as respirações com o mesmo arquejo. Tudo se tornou
um. Corpo, cosmo, coração constelação. E quando foi atingido pelo êxtase, em
meio a gritos e sussurros, Mu sentiu-se aquecido e completamente livre de sua
solidão.
Quando o sol rebrilhou no céu
trazendo seu calor revigorante, os amantes, ainda abraçados e agora sentados na
cama, nus e pouco cobertos pelos lençóis amarfanhados, o miravam pela janela.
Mu descansava a cabeça no ombro forte do cavaleiro de Touro que afagava seus
cabelos com intenso e desmedido carinho.
— Como se sente?
O lemuriano sorriu e virou o
pescoço para mirar o outro nos olhos.
— Sinto-me forte, sinto-me
inteiro, sinto-me... humano.
Aldebaran sorriu e capturou
aqueles lábios rosados para mais um beijo.
Mu era um anjo, um anjo belo e
transparente. Um anjo sim, mas não de vidro. O jovem cavaleiro de touro não
mais o chamaria assim. O cavaleiro de Áries não estava mais frágil, agora
poderia dizer que ele recuperou o ânimo e estava tão fortalecido quanto sua
parede de cristal.
Seria seu anjo de cristal.
Mu sabia: o amor o salvou. O
salvou dos anos de exílio, solidão e amargura. O amor o resgatou das montanhas
geladas de Jamir e aqueceu seu corpo e coração.
**Uma estrela no céu**
Dias passaram-se, outras guerras
vieram. O fim chegou. A vida de Aldebaran se extinguiu em defesa do Santuário
de Athena.
“Aldebaran, você salvou a minha
vida através da sua mensagem silenciosa. Eu senti o último vestígio do seu
cosmo na armadura de touro e com ele eu pude me prevenir e bloquear o ataque
daquele inimigo. Muito obrigado meu amigo, eu prometo que seu sacrifício não
será em vão. Eu prometo seguir com nossa missão de proteger Athena. Vá,
transforme-se numa estrela e proteja-nos sempre aí de cima.”
“Vá, meu amor. Seja para todos o
anjo que foi para mim. Em breve nos encontraremos novamente.”
Fim


Nooosssaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, que lindo, GENTE! QUE LINDO!!!!! *ooooooooOOO*
ResponderExcluirG-JUIZ, SEM ÔR! Essa fic ficou MARA, digna de recomendação! Gente... nem sei o que dizer, foi tudo tão lindo! E eu adorei a fanart do final. A-DO-REI, acho que até vou faze ruma também, eu sempre achei esse casal muito fofo, o Deba é o cavaleiro q tem o jeito mais fofinh, eu acho pelo menos '-' Nossa, esse casal é tudo de bom - embora eu prefira Mu e Kanon - carai, sei nem o que dizer, só q achei tudo lindo e fofo!!