sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Pão, vinho, amor e cólera


...e teus olhos buscavam o que agora - pão,
vinho, amor e cólera - te dou, cheias as mãos,
porque tu és a taça que só esperava
os dons da minha vida.
Pablo Neruda


A noite derramava suas gotas negras ao redor do santuário. No templo, um perfume suave que mesclava vinho, incenso e algo doce... porque não dizer, profano, se apercebia desde o salão até o jardim.

Sob um tapete felpudo e carmesim, dois corpos jovens, suados, lavados por suor, sangue e sêmen repousavam serenos, como a mais doce cena bacante dos tempos antigos.

Quem olhasse sentiria a paz luxuriante do momento. Um quadro de Bosch. Era o jardim das delícias terrenas, só que ali havia apenas dois amantes que ressonavam pós-gozo com sorrisos satisfeitos nos lábios e vergões ensangüentados na carne.

Quem os visse, jamais desconfiaria da batalha egônica que eles travavam todas as vezes que o mar dos olhos d’um desaguava no mar dos olhos d’outro.

“Não queres comer?” A voz melodiosa do cavaleiro se fez imperiosa, ecoando suave entre as paredes de sua casa.

“Não estou com fome, estou apenas de passagem”.

“De passagem? Desde quando minha casa é passagem pra você? Aqui, você fica se eu quiser!”

Riso irônico e irritante — “Se você quiser? E desde quando se nega a mim?”.

“Desde o momento que você acha que pode desdenhar de mim. Está pisando em terreno perigoso, garoto...”

Um passeio pelo ambiente à luz de velas enquanto o amante o observa com os olhos azuis cintilando de ódio.

“Temo dizer que você é um ótimo cavaleiro, mas um péssimo anfitrião. Convida-me para jantar e me oferece pão? Não tinha algo melhor?”

“Ah, santa ignorância! Não seria esse o jantar, seu idiota obtuso, paleolítico!”

“Olha como fala comigo!”

Com um risinho irônico e provocador, Shaka respondeu elevando o queixo —“ Eu falo com você, reles cavaleiro de bronze, como eu quiser!”

Farpas para esconder a mágoa. Esforçara-se para fazer o jantar, esforçara-se e Ikki sabia e era exatamente por isso que desdenhava, apenas para provocá-lo.

“Você estava de passagem, não estava? Então vá embora, encontrarei alguém melhor para jantar comigo, afinal, esse santuário está cheio de cavaleiros... muito mais dignos da minha companhia.”

Terreno perigoso novamente. Não se brinca com os brios de um leonino.

 “Pena que nenhum vai satisfazê-lo como eu, afinal por que estaria comigo, homem mais próximo de Deus?”

Calou-se. Calou-se porque ele não acreditava em amor e não tentaria fazer com que acreditasse; isso seria apenas mais um motivo para começar uma discussão que certamente o exasperaria e se mostraria interminável.

“Vai embora, já não o quero aqui!”

“Não vou, agora eu quero ficar...”

Um sorriso de canto deixa os formosos lábios. Ele sabia. Tudo era somente para irritá-lo, tirá-lo do eixo, do pedestal.

Suspirou vencido, pegando um cacho de uvas sobre a mesa e mastigando uma com sensualidade, enquanto os olhos brilhantes se prendiam ao corpo forte do amante.

“Então vamos comer” — caminhou imponente em seu robe carmesim e pegou uma taça de vinho, entregando outra ao seu convidado — “A nossas discussões inúteis, Ikki...”.

“A inutilidade do nosso amor, Shaka...”

“Você não acredita em amor, Ikki...”

“Ah, sim, verdade...Eu não acredito...”

O murmuro foi rouco enquanto os dedos afastavam o tecido vermelho da pele branca. Como um rio, seja sangue ou vinho, ele caiu ao chão desnudando as formas perfeitas, divinais, dionísticas do jovem bacante, outrora um iluminado...

As mãos morenas derramaram o líquido rubro sobre o dorso formoso e nu e seus lábios sorveram o doce desejo em cada canto e recôndito. A mesa virou cama, vinho, incenso, suor... unidade.

Dormi contigo a noite inteira junto do mar, na ilha.
Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.



União lasciva, línguas e pele, vinho e suor se mesclavam. O vibrar da carne junto ao gemido rouco, o pulsar do falo encontra o toque dos dedos.

Talvez bem tarde nossos
sonos se uniram na altura e no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
embaixo como raízes vermelhas que se tocam.



E os deuses seguiam sequiosos os movimentos dos corpos naquela dança celeste. O quadril moreno que se chocava com as ancas claras, os gemidos e gritos, dedos que se retorciam... O jardim de Bosch, a Ilha das delícias...

“Ikki!!!” o grito de luxúria ecoou pelo templo, seguido por outro e mais outro, e mais outro. Os corpos que se uniam... e consumiam ardendo na chama escura do gozo.

O mergulho no labirinto, o encontrar do pulso, o coração que acelera... Dor, prazer... sangue e vinho tinto... Incensos e o jantar esquecido...

Unhas rasgam a carne para conter a insanidade da alma.

— Ah, Shaka... eu te... Ah...! — gritou a voz grave e rouca antes do caos, interrompendo a confissão esperada, desesperada.

O êxtase jorra gota a gota como orvalho. Os corpos se retorcem, gozam do contato, amor... Amor além das palavras...

Talvez teu sono se separou do meu e pelo mar escuro
me procurava como antes, quando nem existias,
quando sem te enxergar naveguei a teu lado
e teus olhos buscavam o que agora - pão,
vinho, amor e cólera - te dou, cheias as mãos,
porque tu és a taça que só esperava
os dons da minha vida.


A noite goteja negra beijando a claridão da aurora. Ele se move, eles se movem. Mãos afagam cabelos, costas, pequenos murmúrios doloridos...

Os olhos escuros contemplam o rosto claro e um sorriso se desenha no canto dos lábios, algo lascivo.

A boca toca os lábios molhados e belos em um beijo santo... O anjo caído sonha e beija também em resposta. Os olhos escuros sorriem mais uma vez e seu dono descansa.


Dormi junto contigo a noite inteira,
enquanto a escura terra gira com vivos e com mortos,
de repente desperto e no meio da sombra meu braço
rodeava tua cintura.


“Não, eu não acredito em amor”. Repete enquanto o braço forte envolve a cintura delgada e ele se agita levemente, lascivo anjo de cabelos trigueiros.


Nem a noite nem o sonho puderam separar-nos.
Dormi contigo, amor, despertei, e tua boca
saída de teu sono me deu o sabor da terra,
de água-marinha, de algas, de tua íntima vida,
e recebi teu beijo molhado pela aurora
como se me chegasse do mar que nos rodeia.



“Mas eu te amo, deuses como te amo...”

E dormiu enquanto a noite beijava a aurora.





Fim



Nota: O poema que acompanha a história é "A ilha" de Neruda. Obrigada a todos que leram.




Sion Neblina

2 comentários:

  1. Maravilhosa e sexy. Adorei! Não conhecia esse poema de Pablo Neruda. Obrigada por me apresentá-lo na sua fic.
    Incrível como o casal Ikki e Shaka implica em sensualidade pura!

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    1. Obrigada, querida, feliz por você ter gostado, realmente esse casal é muito sexy. Bjs!

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