segunda-feira, 7 de maio de 2012

My Wakashu gata Memórias ilustradas do Oriente




Primeira de uma possível série de fanfictions ambientadas no Japão feudal. Cada uma apresentará um aspecto cultural do Japão do Período Edo ou Restauração Meiji e se unirão como uma só história, mesmo sendo histórias paralelas, no entanto, cada fic terá seu tempo a ser produzida, não dependendo uma da outra para ser compreendida. Entendam que quando eu falo de aspecto cultural, isso não isenta o texto de possíveis “viagens mentais” minhas, logo não esperem uma representação totalmente fiel e histórica aqui.
 A primeira é My Wakashu gata é uma história simples de amor, sem grandes dramas que me veio à mente após ver a imagem que usei como capa. Claro que a imagem não é minha, então todos os créditos vão para a talentosíssima fanartista.

Dessa vez, trago um casal superinusitado, eu sei hehehehe, HYOGA X SHIRYU. Ainda assim, espero que tenham pessoas com mente aberta o suficiente para ler e, gostando ou não, deixar um comentário.

Wakashu gata ou kabuki era o nome dado aos atores jovens que interpretavam papeis femininos no teatro kabuki inicialmente, onnagatas mais direcionados as apresentações eróticas e que muitas vezes se prostituíam.

Obs. Não betado, perdoem possíveis erros.













My Wakashu gata

Memórias ilustradas do Oriente

Oceano pacífico - Século XVII

O navio seguia atravessando o estreito e suas nervosas águas. A paisagem branca era de doer os olhos e o frio intenso. Estava numa viagem perigosa há mais de 90 dias. Precisava chegar ao Japão para buscar uma nova encomenda de bicho-da-seda. Era um negócio lucrativo na época e que durante muito tempo uniu Europa e Ásia, desde a conhecida rota, contudo, bastante perigoso.

Passar tanto tempo embarcado, enfrentar o frio, a neve, os estreitos de águas turbulentas, a sede e a fome, sem contar os terríveis ladrões de mercadorias, conhecidos como piratas por muitos, não era algo totalmente racional; entretanto, conhecer terras e culturas exóticas me fascinava e eu não pensei duas vezes em deixar minha pequena província e me aventurar pelo mundo. No fundo, minha alma sempre foi bastante aventureira e esse serviço, lucrativo, dava sentido à minha existência.

Nos meus então vinte e dois anos, pouco tinha feito da vida. Casei-me com uma moça da minha terra. A desposei após meu retorno da capital, onde estudei o que meu dinheiro pôde pagar, não muito; filho ilegítimo de um barão e uma cortesã, meu dote fora apenas o dinheiro cedido por meu pai para que minha mãe desaparecesse com a cria indesejada. Assim, ela deixou a Rússia e foi para a França onde cresci, mais especialmente na província de Bern.

— Alexei, avistamos terra firme! — alguém gritou tirando-me do trabalho de escrever em meu diário de viagem naquela época.

Mirei o marujo e sorri discretamente. Jabu era um rapaz cheio de entusiasmo e ficamos relativamente amigos naqueles meses de viagem.

Fitei o horizonte que, de onde estava, permanecia uma imensidão branca.

— Obrigado, Jabu — respondi apenas.

Ainda navegamos por mais dois dias antes de alcançar terra firme, mas todo duro percurso foi compensado quando o cheiro verde do bambu e das cerejeiras invadiram minhas narinas. Peguei minha bagagem e desembarquei vendo a movimentação do porto; homens, mulheres e crianças executavam trabalhos diversos. Eu ficava cada vez mais fascinado com aquela profusão de cores, os chapéus diferentes, os cabelos escuros. Muito deles levavam às costas, sacolas com toda espécie de erva.

Para um ocidental como eu, embora ali, eu me aproveitasse do sobrenome, herdado de meus avós maternos, para chegar a Edo, tudo era exótico e vivo, vivo e límpido como não era mais a Europa que eu conhecia.

Estava no Japão para negociar a compra de bicho-da-seda. Dizia-se que os japoneses eram os melhores. Meu patrão tinha gastado uma soma considerável de dinheiro naquele empreendimento e eu não podia fracassar. Devido a isso, meu nervosismo era grande, não podia perder meu guia ou não chegaria ao meu destino final.

Abri novamente o papel com as instruções dadas por meu patrão. “Dohko, senhor da província de Nagasaki”. Guardei o manuscrito em meu bolso novamente e finalmente alguém despertou-me a atenção. Era um rapaz de traços delicados e cabelos de tonalidade estranha e maravilhosa, lilás. Ele possuía grandes e calmos olhos verdes e dois sinais peculiares sobre os olhos. Informou-me que seu nome era Mu e que eu deveria segui-lo. Mu usava trajes típicos orientais, algo que parecia um vestido reto, de mangas longas e gola trabalhada, sobre uma calça do mesmo tecido. Seus cabelos estavam presos somente na ponta e lhe caíam até a cintura. 



 


Ele contou-me que apesar de estar no Japão, o Daimyo Dohko era chinês e se estabelecera ali como um rico proprietário de terra. Soube também que chineses e japoneses tinham boas relações, e meu futuro senhorio parecia ser bastante respeitado naquela região.

Mu era simpático e muito educado, uma educação gentil e refinada, contudo distante, que nós europeus não estamos acostumados. Surpreendi-me ao ouvi-lo falar perfeitamente meu idioma e, mesmo que eu tenha me oferecido para falar o seu, ele dispensou e disse que eu não precisava me incomodar.

— Senhor, o carro nos espera — ele dissera e fez uma mesura respeitosa, me indicando o caminho por onde eu deveria seguir. Foi uma grande surpresa encontrar um coche bastante ocidental em Nagasaki. Contive a necessidade estranha de comentar aquilo e nós dois seguimos em silêncio, um sentado de frente ao outro, mas sem comentários. Preferi ficar mirando a movimentação da rua pela janela.




Eu ficava cada vez mais deslumbrado com a paisagem verde das vastas florestas e as lavouras coloridas, além de templos diversos e das brancas flores de cerejeira.

Chegamos a uma estrada de pedra e eu logo pude vislumbrar a construção imponente cercada por um rio de águas escuras. Os cavalos correram velozes pela ponte de madeira polida e alcançamos à propriedade. Havia quatro soldados à porta, uniformizados com trajes em tons vermelhos e levando um estranho chapéu sobre os cabelos. Eles saudaram quando o tal Mu se anunciou e liberou a passagem do coche.


Chagamos ao passo do han e descemos do carro. Eu mesmo carregaria minha bagagem, mas Mu chamou um dos serviçais e orientou-o a levar-me para o terceiro prédio logo atrás da construção maior e me mostrar meus aposentos.

— Daimyo Dohko está retornando de uma viagem, assim que ele chegar à casa do tigre o senhor será chamado — falara Mu de forma gentil. — Este servo ficará a vossa disposição. Em teu quarto há água para o banho e roupas também, mas caso prefira suas roupas ocidentais, fique à vontade. Logo mais, serviremos a refeição, se desejar, pode apreciá-la com o resto da família, ou em vosso quarto, fica a vosso critério, senhor Yukida.

Apenas agradeci e ele me deixou junto ao servo que me mostrou minhas acomodações. Eu estava realmente exausto e faminto, mas nada seria maior que minha curiosidade a respeito daquele lugar. Era minha primeira visita ao Japão e só o consegui devido ao meu sobrenome japonês, sobrenome este que nunca havia valorizado e que agora era o responsável pela melhor memória da minha vida. Meu sobrenome foi herança do homem que me batizou como filho ao se casar com minha mãe. Não sabia se havia de fato, sangue oriental em minhas veias, mas me vali dele para ali chegar.

Banhei-me e vestir-me nas roupas típicas que me foram deixadas. Pensei que dessa forma, demonstraria mais respeito. Acho que consegui o que pretendia, pois todos que passavam por mim se inclinavam em reverência.

Andei algum tempo pelos jardins de flores exóticas e singelas, observando cada detalhe delas. Ali tudo era belo e opulento.






Ouvi o cantar tranqüilo de uma fonte e segui o barulho doce das águas. Acabei adentrando em um bosque tão perfumado pela relva fresca que me fez sorrir. Era um recanto de paz e harmonia. O silêncio e os sons da natureza se imiscuíam com perfeição.

Adentrei entre os arbustos, sentindo o cheiro da relva mais forte, então encontrei a cachoeira. Havia um jovem ali e eu estanquei surpreso e... fascinado de imediato.

 Ele tinha pele clara e longos cabelos negros que lavava cuidadosamente nas águas límpidas. Vestia apenas uma calça típica branca. Sua pele era suave e os olhos de longos cílios possuíam um tom entre o azul escuro e o verde.

— Olá — cumprimentei em meu idioma esquecendo-me momentaneamente que estava em outro país.

— Olá, estrangeiro, seja bem vindo ao Japão. Com certeza espera por Daimyo Dohko — a voz dele era suave como o cantar das próprias águas; fiquei um pouco entontecido e demorei a responder, deixando-lhe com um olhar curioso.

— Sim... — resolvi falar em seu idioma. — Desculpe-me a invasão, estava admirando a paisagem e acabei...

— Não precisa se desculpar — a voz calma do rapaz voltou a falar enquanto ele pegava um quimono sobre as rochas que emoldurava a cachoeira. — Que tal acompanhar-me num passeio pela propriedade. Tenha certeza que há lugares ainda mais belos que esse, chamo-me Shiryu — ele pós a mão aberta sobre o punho fechado num característico cumprimento chinês que eu fiz questão de repetir.

Já havia estado na china para reconhecer aquele cumprimento e, sendo povos vizinhos, não estranhei que no Japão se fizesse igual.

— Yukida, Alexei Hyoga Yukida — disse meu nome de maneira formal.

Shiryu sorriu e eu fiquei um pouco atordoado pelo sorriso sereno dele. Aquele jovem me provocava uma paz estranha. Algo revigorante em meu corpo cansado. Ele parecia ter a essência calma das águas daquele lugar, a essência da natureza dentro de si, seu olhar era límpido e calmo, seus gestos educados e graciosos, quase feminis, sem contato perder o aspecto homem que brilhava no olhar engenhoso que ele me lançava.

O rapaz chinês sorriu e torceu os longos e lisos fios negros, os enrolando em um coque no alto da cabeça. Depois pegou a parte de cima de um quimono e vestiu o dorso delgado, prendendo-o com o cinto verde com cuidado e calma.

— Caso deseje, posso mostrar-lhe a plantação, deves ter vindo por causa dos bichos-da-seda.

— Sim, foi para isso que vim.

Ele apenas assentiu e me deu passagem entre as árvores altas, bambus que exalavam aquele cheiro exótico no ambiente. Shiryu seguia respeitosamente ao meu lado, fazendo alguns comentários sobre a propriedade do nobre Dohko, explicando origem e história. Contou-me que saiu da China criança e que estava a quase um ano em Dejima, percebi que ele era um rapaz culto e refinado como poucos da sua idade na Europa, e isso me alegrou, sempre fui intelectualizado demais para minha província e era bom ter alguém com quem conversar.

Um riacho com águas voluptuosas cantava enquanto caminhávamos e a voz de Shiryu parecia uma melodia suave aos meus ouvidos, ela se unia ao canto do rio de uma maneira harmoniosa e profunda. Era como se aquele rapaz tivesse a mesma essência da natureza.

— Precisamos passar por essa ponte — informou-me ele quando chegamos a uma armação de madeira e cordas que cortava um precipício. Não era longa, mas a altura e as águas tumultuosas do rio logo abaixo me levaram uma angústia ao peito.

— Fique tranqüilo, a ponte é segura — ele pousou a mão em meu ombro num gesto impensado e logo a retirou, corando visivelmente, coisa que não entendi muito bem naquele momento. — Desculpe-me.

— Aqui no Japão, os homens não se tocam? — perguntei numa curiosidade pueril que pareceu espantar meu novo amigo, então me apressei a explicar-me: — No Ocidente é normal trocarmos abraços, aperto de mão e cumprimentos afetivos, isso é demonstração de amizade.

Shiryu ficou com um semblante esquisito, analisando minhas palavras como se ouvisse algo completamente novo.

— Bem, nessa parte do Japão isso não acontece tão facilmente, principalmente a alguém como eu...

— Alguém como vós? Como assim?

— Shiryu?!!!

O nome do jovem ao meu lado foi gritado por uma voz adolescente e estridente e logo um rapaz de cabelos revoltos e castanhos se aproximava. Ele vestia apenas uma calça marrom e estava suado e ofegante.

— O que deseja, Tenma? — indagou Shiryu.

— Daimyo Dohko mandou dar-te um recado — falou o menino ofegante. — Disse que deve pernoitar na vila de Sao e que tu deves cuidar do Han e dos visitantes até que ele retorne.

O jovem de longas madeixas negras ficou pensativo por um tempo, mas quando voltou a falar sua voz permanecia plácida.

— Obrigado, Tenma, cuidarei de tudo.

Falou, mas o jovem de olhos castanhos continuou parado com uma interrogação muda que obrigou Shiryu a questioná-lo.

— Mais alguma coisa?

— Ainda teremos o teatro essa noite?

— Não, acho melhor esperarmos por daimyo Dohko — sorriu Shiryu.

— Tudo bem então, com licença — falou Tenma saindo correndo. Shiryu fez um gesto de cabeça e chamou-me para atravessar a ponte, coisa que fizemos em silêncio.


A beleza que o outro lado da ponte reservava era algo tão esplendoroso que doía os olhos. Árvores com folhas douradas e avermelhadas e flores de cerejeira brancas e rosa. Embrenhamo-nos na mata até chegar à plantação que nada mais era que um imenso galpão de madeira onde as larvas habitavam.

— Como devem saber, elas são alimentadas somente com folhas de amoreira o que garante a qualidade dos fios — falou Shiryu indicando a grande quantidade dessas árvores existente ali.

— Sim, meu chefe ficará muito feliz, tenho certeza da qualidade dos fios.

Shiryu assentiu e mirou o céu que começava a apresentar uma nuance rósea. — Devemos voltar, logo cairá à noite, daimyo Dohko deve estar de volta amanhã pela manhã.

— Sim, claro — concordei me afastando do local a passos rápidos. — Pena não ter o teatro hoje, eu gostaria muito de ver como funciona o teatro.


— Sim, é mesmo uma pena, mas quando daimyo Dohko retornar, poderá apreciá-lo.

— Adoraria, mas creio não ter tempo.


— Daimyo Dohko fará que mude de idéia, o senhor escolherá permanecer aqui.

— Não me chame de senhor, acho que temos, mais ou menos, a mesma idade — sorri para ele, mas o rapaz não retribuiu o meu sorriso. Achei tal atitude estranha e fiquei um pouco constrangido, todavia, logo Shiryu começou a falar de coisas da cultura japonesa que me fizeram esquecer tal sensação.

— Interessante — murmurei enquanto o seguia pela ponte estreita. — Só não entendo como algo tão belo como a cultura desse país possa ser privada dos olhos do mundo.

Shiryu sorriu de lado e balançou levemente a cabeça. — O xogun teme que a abertura acabe por fazer isso, que a influência Ocidental interfira em nossa cultura. Ele é vassalo fiel do imperador e quer apenas proteger seu povo.

Eu apenas sorri. Sabia que aquele jovem repetia o discurso que aprendeu ao longo da vida e legitimava um governo autoritário, mas não estava ali para discutir política, queria apenas meus bichos-da-seda e voltar a Europa. Estava feliz pelas relações do meu patrão com a Companhia holandesa das Índias Orientais ter me permitido chegar até ali.

Atravessamos a ponte e Shiryu se despediu de mim, desejando-me uma boa noite de sono. Eu desejei o mesmo e por um momento nossos olhos se encontraram e se perderam como o navegante confundido pela névoa numa noite de tempestade. Precisei de todo controle interno para não ceder ao alvedrio de erguer a mão e tocar-lhe a face e aquilo deixou-me em estado tão perturbado de alma que logo me recolhi, introspectivo e analítico aos meus sentimentos.

Tive uma noite razoavelmente calma, sem sonhos, mas acordei algumas vezes, ouvindo o cantar dos grilos e o vento que balançava os bambus que eu via pela janela e espalhava o cheiro adocicado e inebriante daquela planta que se unia ao delicado das flores de cerejeira.

Levantei-me da cama e cobri-me com um robe, saindo a passear pelo passo sem grandes pretensões, apenas aproveitando o clima ameno da noite. Foi então que eu o vi sentado em uma das praças do han, seus cabelos ébano refletiam a lua cheia e o vento o soprava e as pétalas das sakuras ao seu redor, desenhando um quadro místico contra o céu escuro.

Fascínio, sedução, um erotismo tão primitivo que minhas pernas tremeram... Ainda tremem.


Este caminho

Ninguém já o percorre,

Salvo o crepúsculo.


De que árvore florida

Chega? Não sei.

Mas é seu perfume


Ele me encarou com o mesmo semblante tranqüilo e eu, como se movido por alguma força desconhecida, aproximei-me e segurei-lhe as mãos, tomado por uma emoção profunda. Era como se eu acabasse de encontrar algo perdido durante uma tormenta em alto mar. Aquela imagem ficou tão nítida em minha mente que... É como se o visse ao meu lado.





Lembrei-me da frase que ele me dissera horas atrás e apertei com força suas palmas macias. Seus olhos se voltaram para mim sem nada dizer, mas seu olhar tudo me dizia e foi como imãs ou como náufragos sedentos que nossos lábios se encontraram e se tragaram de forma intensa. Era uma sensação nunca experimentada, eu mergulhava na umidade doce e quente dos lábios finos do rapaz chinês como se ele já me pertencesse há séculos. Por quê? Nunca fui um homem dominado por lascívia e nunca me tentou a possibilidade de me relacionar com outros homens. Eu era um homem casado, cristão, por Deus! Minha esposa me esperava, embora nenhum amor por ela ocupasse meu coração. Preciso foi que enfrentasse procelas até o Japão para conhecer o ser que me arrebataria para esse mundo desconhecido, monstruoso e inabitado do amor?

Shiryu partiu o beijo, mas seus olhos não deixaram os meus, estavam brilhantes ainda mais se possível, um mar estranho entre o azul profundo e o verde cintilante. Seus lábios molhados e rubros se abriram levemente num sorriso casto e ele se afastou, antes deixando os dedos escorregarem sobre meu rosto, até que apenas as unhas o tocassem para depois o nada.

Ele partiu vestido em seu quimono branco com o desenho de um dragão translúcido. Seus cabelos esvoaçavam com brilho único fazendo a noite ter inveja de sua negrura.

Fiquei parado apenas vendo-o partir com a elegância que nenhum homem ou nenhuma mulher jamais teria. Ele era único, belo e exótico, um ser quase místico. Ao encará-lo, perguntava-me se não estava numa das terras cantadas pelos primeiros navegadores, terras cheia de encantos e erotismo. Os passos silenciosos de Shiryu, seu corpo esguio e elegante, seus cabelos que ondulavam enquanto ele andava davam-me a impressão de estar em um sonho.

Voltei para o meu quarto e sentei-me a observar o luar fascinante que entrava por minha janela. Uma inquietação calorosa me alegrava o ânimo e eu sorria relembrando o beijo. Podia sentir seu calor em meus braços, sua pele macia, seu corpo receptivo... Ah, Shiryu, como sinto falta das tuas mãos suaves e temperantes...


A porta se abriu com um gemido. Um servo entrou, trazia uma jarra de porcelana. De forma disciplinada e respeitosa, ele deitou a taça num prato e colocou sobre minha mesa, retirando um copo de porcelana igual e me entregando. Com uma mesura, pediu permissão para sair que concedi de imediato, curioso.

Já estava pondo o vinho quando vi dentro do copo um pedaço de papel fino e cuidadosamente dobrado em um origami de um cisne. Desfiz o harmonioso embrulho e me deparei com algo escrito em delicadas letras japonesas, um poema:


Um jarro de vinho entre as flores,
bebo sozinho - nenhum amigo me acompanha.
Alço minha taça, convido a lua
e minha sombra - agora somos três.
A lua não bebe
e minha sombra apenas imita meus gestos.
Mesmo assim, são elas as minhas companhias.
É primavera, tempo de festa -
canto, a lua escuta e cintila;
danço, minha sombra se agita, animada.
Enquanto estou sóbrio, juntos estamos os três;
quando me embriago, cada um segue seu rumo.
Selamos uma amizade que nenhum mortal conhece.
E juramos nos encontrar no mundo além das nuvens

Li Po

Sorri e guardei o papel com cuidado. Bebi o vinho quente e realmente a noite tornou-se alegre até que desacordei. No dia seguinte, meus olhos se abriram com o sol que adentrava pela janela aberta. Levantei-me sentindo o gosto amargo do vinho e ainda tonto. Fiz minha higiene matinal aproveitando a tina de água fresca e, muito bem alinhado, deixei meus aposentos me ofertando ao sol da manhã.

O jovem de cabelos castanhos chamado Tenma veio sorrindo ao meu encontro e me cumprimentou de forma simpática.

— Daimyo Dohko chegou durante a madrugada e o espera.

— Chegou durante a madrugada e já está de pé? — estranhei o encarando.

— Sim, ele dorme pouco, deseja que o senhor o acompanhe no desjejum.

O daimyo Dohko era um homem jovem, não tanto quanto eu, mas era jovem, de cabelos avermelhados e tez amorenada. Olhos verdes vivazes e fala rápida e descontraída. Fui muito bem tratado, acomodei-me ao seu lado à mesa baixa e, embora tentasse retribuir a hospitalidade, confesso que mal ouvia o que ele falava, queria mesmo era saber onde estava Shiryu e o motivo dele não ter ido alegrar minha manhã com sua presença calma e acolhedora.

Estaria arrependido do beijo noturno? Estaria envergonhado? Estaria se escondendo?

Eu ainda era por demais ignorante da cultura do país dos meus avós para entender aquelas atitudes, mas sabia que era natural que os samurais se relacionassem entre si. Havia o wakashudō e a escola Shingon, mas isso não deixava-me menos apreensivo.

— Perdão, senhor Dohko — interrompi sem mesmo prestar atenção ao que meu anfitrião dizia. Ele me olhou de forma curiosa e resolvi terminar logo com aquele olhar que me inquietava um pouco.

— Ontem um rapaz me recepcionou em sua ausência, seu nome é Shiryu, onde ele está nesse momento?

Dohko ficou em silêncio me encarando. Dentro das roupas tradicionais de samurai que era um quimono de parte superior verde amarrada por um obi negro e calças igualmente negras e largas, aquele homem possuía um ar venerável que, mesmo sendo gentil, intimidava.

— Deve estar recolhido ao seu dormitório, mas mandarei chamá-lo se assim desejar.

— Não é preciso, só estranhei sua ausência — respondi, corando um pouco, sei.

Dohko se ajeitou nas almofadas e sorriu. — Quando estou no Han, eu recepciono os convidados e negociantes, isso não é função dele, apenas em minha ausência, ele e Mu tomam essa função para si.

— Entendido.

Depois do simples, mas nutritivo café da manhã, eu segui com o senhor Dohko para observar o bosque e depois chegamos ao galpão de criação onde os servos já separavam minhas vinte caixas, como exigira meu patrão. Tudo era feito com muita disciplina, num verdadeiro ritual calmo que me fascinava assim como o vento que soprava e dobrava as árvores bambus sem, no entanto, quebrá-las.

— Pedirei para que um dos meus homens leve as caixas ao vosso navio, jovem Yukida — disse-me Dohko gentilmente. — Gostaria que passasse a noite aqui na morada do tigre. Apresentar-se-á um espetáculo peculiar que tenho certeza que o deixará fascinado.

— Do que se trata? — perguntei realmente animado. Sempre fui um homem interessado em conhecimento e cultura e a cultura oriental me fascinava profundamente.

— Teatro kabuki, já vistes alguma vez?

— Não, mas me interessa muito e sim, eu fico — sorriu verdadeiramente alegre com aquela notícia. Adiaria minha viagem por mais um dia e acompanharia o teatro do senhor Dohko àquela noite.

Voltamos para o castelo quando o sol já estava se pondo, pois quanto mais conhecia a extensa propriedade, mais fascinado ficava e ainda com mais vontade de conhecê-la e desvenda-la. Dohko dizia que as florestas de bambus eram semelhantes as da China e era o que mais gostava na morada do tigre.

Quando finalmente voltamos ao castelo, o sol já estava se pondo. Rapidamente foi para os meus aposentos, onde fiz minha higiene e me vestir com um quimono azul escuro, cedido por meu senhorio. Mirei-me no espelho e percebi que, de certa forma, algo do meu avô estava em mim naquele momento.

Dirigir-me ao palácio e partilhei uma boa refeição junto a Dohko e seus convidados, mas a ausência de Shiryu ainda me afligia. O que eu havia feito? Será que o nobre jovem estava tão constrangido que não conseguia encara-me e só não rechaçara-me na noite passada por sua fina educação?

Depois da janta, seguimos para um grande salão em madeira clara onde o teatro se apresentaria. Era uma apresentação particular de kabuki. Havia um palco baixo e de frente a ele, várias almofadas onde os convidados do daimyo se arrumaram para assistir a peça.

Quando as cortinas se abriram, meus olhos se arregalaram confusos, à minha frente estava Shiryu, maquilado e arrumado como os demais atores, mas era notório que ele representava um papel feminino.

Entreabri meus lábios, surpreso, meu coração disparou e senti a garganta seca. Shiryu parecia não me ver, concentrado estava em sua apresentação.

Deus, nenhuma mulher poderia ser tão perfeita e graciosa e senti uma emoção profunda quando percebi que a cena que era contada, retratava o acontecimento da noite anterior, o beijo que trocamos ao luar, mas não da forma casta como foi, mas com certeza do modo erótico como deveria ter sido. A peça era de erotismo elegante, mas indisfarçável. O quimono que Shiryu usava era escuro com desenhos claros e deixava, muitas vezes, partes do seu corpo como ombros e pernas a mostra. O ator que representava com ele, corria a mão por seu corpo e aquilo me levava um incômodo incontido, ao mesmo tempo em que ver algo tão erótico entre dois homens, impossível de se ver na Europa, esquentava meu sangue e agitava-me o coração.

— O Shiryu é quem escreve as peças, por isso não o viste hoje — confidenciou-me Dohko sem tirar os olhos do palco, igualmente fascinado pela apresentação.

Fiquei um tempo sem ação mirando os gestos graciosos do onnagata no palco. Ele era todo delicadeza na dança que empreendia assim como o cuidado de representar um difícil papel feminino ele que, apesar de elegante e educado, não possuía modos feminis. No palco, todavia, Shiryu se transformava em uma verdadeira gueixa.

— Como isso é possível? — permitir-me murmurar e os olhos vivazes de Dohko se voltaram para mim.

— A prática Onnagata está proibida, somente nobres de fina estipe, como eu, podem apreciá-la em privado. Mesmo com a proibição há muitos teatros espalhados por Edo, Kioto e Nagasaki, os japoneses não abririam mão de uma de suas maiores tradições.

— Você não abriu mão, não é? — disse com um incomodo estranho batendo em meu peito. Agora compreendia o que Shiryu dissera com a palavra “um homem como eu”, ele era um onnagata, uma gueixa, com certeza também uma propriedade do daimyo Dohko.

Dohko sorriu de lado, acho que para ele, era fácil reconhecer aquele sentimento de ciúmes que brilhava nos meus olhos; o daimyo me diria depois por carta que achava estranho que eu nutrisse tal sentimento sem ter visto Shiryu dançando antes, geralmente o jovem chinês era discreto e não se aproximava dos estrangeiros que visitavam suas terras. Isso foi para mim mais uma prova do misticismo do nosso encontro.

O que Dohko não sabia era que algo insólito e mágico aconteceu a mim no momento que encarei aqueles olhos enigmáticos. Algo inesperado, mas que, de fato, coloriu-me a vida.

O daimyo ocultou seus pensamentos e deixou que a apresentação seguisse. Depois que as cortinas do teatros se fecharam, os convidados foram para um grande salão onde eram servidos por rapazes de yukatas e pintura nos rostos. Fiquei fascinado com aquilo, pois era algo tão natural que ninguém parecia se incomodar com os modos delicado deles. Todos vestiam-se com quimonos claros e tinham longos cabelos. Cada um deles carregavam garrafas de vidros ornadas com barbantes e pedras que serviam o saquê aos convidados.

Eu fiquei com as costas apoiadas em uma da paredes de madeira sem saber o que fazer e com medo até de mover as mãos. Tudo era erotismo, uma sensualidade respeitável e delicada como as sakuras que se sacudiam à luz noturna. Um cheiro inebriante e doce alcançou minhas narinas e de repente enxerguei em um dos corredores uma tênue luz que oscilava, demonstrando claramente que alguém andava segurando um candeeiro.

Sem saber o motivo, movi-me atrás daquela luz oscilante, seguindo pelo corredor. O aroma doce pareceu ficar mais forte quando eu entrei em um quarto. A luz oscilante desvendou a figura de Shiryu. Ele estava de costas para mim e acendia algumas velas tranquilamente. Não soube o que dizer, sentia minha garganta seca ao mirá-lo, quase místico, contra a luz amarelada.

— Shiryu...

— Não fale nada, Alexei — ele disse simplesmente com sua voz calma e virou-se, começando a se aproximar de mim. — Quero apenas uma nova porção...

Deus, eu estava apaixonado como um marujo que escutava o canto de uma sereia. Tomei-o nos braços, apertando-o e envolvi seus lábios finos e macios com os meus mais uma vez. Shiryu gemeu e deixou-se consumir em meu fogo, permitindo que o roupão branco que vestia deslizasse por seus ombros, desnudando o corpo masculino, mas esguio e suave que ele tinha.

Deixei meus dedos correrem por seus ombros e braços enquanto meus lábios marcavam o pescoço com devoção, ele o inclinou para atrás permitindo a exploração daquela parte sensível, mas sem emitir nenhum som, apenas fechou os olhos numa expressão de prazer.

Chegamos ao futon entre beijos e carícias sôfregas e eu me permiti tudo ainda um tanto inebriado pelo cheiro das flores e a letargia do saquê. Meus lábios queriam absorver a doçura daquela pele, marcar cada detalhe daquela cútis perfeita. Shiryu gemeu de leve e arqueou as costas, afundando os dedos em meus cabelos loiros, chamando meus lábios para que devorassem seus mamilos intumescidos. Minha língua traçou um caminho de saliva até seu umbigo, brincando com aquela cavidade perfeita, mordisquei logo abaixo dela e deslizei a lâmina pela perna até chegar aos dedos dos pés. O jovem chinês soltou um ofego e eu pude ver um meio sorriso escapar da sua expressão de mártir, então subi novamente meu corpo sobre o dele e tomei-lhe os lábios com um fogo que consumia-me inteiro e foi capaz de acender a chama naquele asceta que eu tomava. O calmo rapaz oriental segurou-me pelos cabelos e roçou seu corpo em mim. Pude sentir sua ereção pulsar contra minha coxa. Eu me afastei para mirar seus olhos escurecidos e ficamos nos encarando na penumbra por um tempo. O homem de longos cabelos negros esticou o braço e pegou um pequeno frasco que logo soube possuir um óleo aromático e o entregou em minhas mãos. Eu não era tão ingênuo para carecer de informações sobre suas aplicações, rapidamente besuntei meus dedos sentindo o corpo ainda mais quente com aquela fragrância doce e afrodisíaca, enfiei o primeiro dedo dentro de Shiryu sentindo-o estremecer e gemer baixo, fiz o mesmo com o segundo sentindo meu membro pulsar com cada vez mais vigor, invejosos com as investidas que meus dedos davam no corpo do belo onnagata.

Não mais controlando minha excitação, deixei o corpo de Shiryu e molhei meu pênis com o óleo, para em seguida erguer as pernas do meu Wakashu e entrar nele de forma lenta e contida, sentindo o estremecimento do seu corpo e a involuntária contração que tornava o ato ainda mais prazeroso.

Shiryu era tão silencioso que eu me permitia olhar seu rosto com cuidado à medida que entrava nele, com medo de machucá-lo e ele não gemer com isso. Depois saberia que ele fora habilmente treinado para aquilo, era um Wakashu gata, que aprendeu a arte da sedução e do sexo muito cedo, mas depois, mais adiante falarei sobre isso, agora quero apenas relembrar a emoção de possuir aquele corpo belo, exótico e ao mesmo tempo proibido...

Entrei por inteiro nele, gemendo extasiado quando conseguir chegar ao fundo do seu corpo. Shiryu deixou escapar um gemido mais alto quando comecei a me movimentar. Eu me inclinei sobre ele, beijando-lhe os lábios e aumentando ainda mais nosso contato. Nossas peles já estavam cobertas por uma camada fina de suor e deslizavam quentes de encontro uma a outra.

— Alexei... — ele murmurou enquanto eu entrava e saía com cada vez mais ímpeto e ouvir meu nome dos lábios agoniados de prazer dele, foi capaz de inflamar todas as minhas terminações nervosas.

Movi-me mais forte, tocando fundo meu amante que gritou e cravou as unhas curtas em meus ombros. Nossos olhos úmidos se encontraram e ele deixou escapar um sorriso cansado e contemplativo. Sorri também apreciando a linda visão daquele rosto e ele jogou a cabeça para trás se contorcendo de prazer e gozando, encharcando nossos corpos com seu sêmen. Sentindo-me tragado para as profundezas do corpo exótico do meu amante, eu também atingir um orgasmo poderoso e cair sobre ele, ofegante, satisfeito e apaixonado.



Sim, eu me apaixonei. Apaixonei-me por aqueles olhos calmos, sábios e contemplativos. Apaixonei-me por seus lábios finos, macios e receptivos. Apaixonei-me por seus gestos tão elegantes e naturais, feminis no palco, mas tão dignamente masculinos fora dele.

Descobri que um onnagata, como Shiryu, eram homens educados e preparados para uma vida de renúncias. Não eram apenas atores, estavam fadados à prostituição e a serem tratados como objetos. Deveriam se portar com a elegância de uma gueixa e a dignidade de um samurai. Muitos deles eram perseguidos e assediados como se realmente fossem prostitutas, mesmo os que não eram. Alguns preferiam vestir a personagem feminina fora dos palcos e viver de favores dos seus patronos. Shiryu no estando, preferia não se portar como uma mulher fora do palco e embora tivesse Dohko como patrono pessoal, este o respeitava e acolhia como um verdadeiro pai.

O jovem chinês tinha uma devoção e gratidão profundas pelo senhor daquele han, pessoa bondosa que o acolheu e livrou-o de ser explorados como os kagemas nas casas de chá. Ali, ele era um ser humano e viva relativamente feliz, embora alegrar daimyo e convidados ainda fosse uma das suas obrigações. Liberdade não tinha.

Isso tudo ele me contou naquela única noite que, após nos amarmos, ficamos olhando as estrelas abraçados à beira do riacho de verdes águas, ouvindo o cantar dos animais noturnos e mirando o céu com uma esperança que não sentíamos.

— Eu amo você — permitir-me dizer, embora aquilo nada dissesse. Era insano, pois nos conhecíamos há pouco mais de 24 horas.

E sendo insano, por que o amor pulsava em mim daquela forma?

Envolvidos em meus braços e também no quimono de seda branca com figura de um dragão que deslizava, desnudando a pele alva do ombro. Shiryu sorriu e apoiou seus sedosos cabelos negros em meu peito.

— Amo-te também — ele disse e nenhum dos dois careciam de explicações ou promessas.

Explicações de como aquilo ocorreu, promessa de uma vida que nunca existiria para nós.

Ele permaneceria no Japão do Shogun, onde, provavelmente, eu nunca mais poderia entrar, e eu estaria na França e sua corrida pelo progresso.

Estávamos cônscios da falácia da nossa vida, mas sabíamos que essa mentira era tudo que tínhamos e que nossa verdade de amor repentino, primaveril, único e impossível, seria a brisa que nos acompanharia nos dias difíceis e nos invernos glaciais das nossas existências vazias.

Amamo-nos mais uma vez à beira do lado e depois voltamos para nossas acomodações. O han de Dohko já dormia, os homens estavam com seus kagemas contratados para alegrar a noite, rapazes trazidos de uma bela e requintada casa de chá em Edo, como soube depois.

Falamos de nossas vidas. Ele me disse que amava a arte da espada e eu confessei que tinha por hobby desenhos a carvão. Falamos todas aquelas coisas corriqueiras e sem importância, mas que representam tudo que o ser humano pode ter de mais precioso e profundo. Aquele foi o nosso momento de estrelas, nosso momento preciso.

Quando o sol nasceu e o cheiro das flores invadiu meus aposentos. Uma ânsia de morte tomou-me o corpo. Eu estava vestido, o carregamento já tinha sido embarcado e a tripulação me esperava. Fui firme e seguir em frente.

Despedir-me de Dohko que sorriu compassivo, claro que ele sabia! Meus olhos buscaram por algo, dentro da casa, mas nada vi.

Partir, cheguei à França com a lembrança daquela noite somente. Doce lembrança que acompanhou meus dias e acompanhará os vindouros se eles ainda vierem.

Ele nunca me escreveu. Não sei se lhe era permitido tal ato, mas minhas únicas informações ao seu respeito, essas que nunca eram muito claras, vinham de Dohko que disse-me que após um tempo, Shiryu lhe rogou que o deixasse partir para uma parte remota da China. Também não sei se isso é verdade, como haveria de saber estando tão distante? Entretanto a memória dos seus toques e sorrisos permanece viva em minha pele, lábios e mente.

Estou doente enquanto escrevo essas últimas memórias, provavelmente esse é o último capítulo do diário de minha vida e só por isso as escrevo. Para que, se vier a morrer, alguém saibam que eu, Alexei Hyoga Yukida, estive no Oriente na aurora da minha vida e me apaixonei pela primeira e única vez. E que embora, somente uma noite constituísse todo nosso envolvimento, esta noite marcou minha alma a fogo eternamente.

Meus dois pequenos filhos estão ao meu lado e eu sorrio para eles, sei que desejam que eu deixe a pena, mas ainda escreverei um pouco mais, deixarei um novo desenho, novo esboço dos meus sentimentos nesse livro de memórias já repletos deles. Meu único bem, depois desses dois pequenos seres que me apertam os ombros e enche-me os olhos de esperança.

Que eles tenham a felicidade que só tive no lapso de um instante.

Então, antes que tudo se apague, deixarei aqui, um pouco mais da memória inesquecível do meu Wakashu gata, Shiryu, meu único, verdadeiro e grande amor.

Deixarei essa pequena história ilustrada para que um dia, esses dois pequenos anjos ao meu lado saibam que eu mesmo que por em uma noite, permitir que o amor, o perfume e a suavidade da brisa oriental preenchessem meu coração e mesmo que isso tenha sido apenas um parêntese no tempo, ainda será pela eternidade a grande memória da minha vida.








Fim


Obs. As imagens não me pertencem, usadas sem fins lucrativos assim como os personagens de cavaleiro do zodíaco. 

Glossário de termos japoneses:

Shogun: Era o senhor feudal que centralizava o poder no Japão no período Edo ou Era Tokugawa.

Edo: Centro do império, onde habitava o Shogun ou Xogun, atual Tóquio.

Obi: Cinto que prende o quimono.

Daimyo: Poderosos senhores feudais que apoiavam o xogunato.

Han: “Domínios” as propriedades desses senhores feudais, ao modo do feudalismo europeu.

Onnagata ou Oyama: Atores que representavam papéis femininos teatro Kabuki.

Wakashu kabuki ou wakashu gata: Onnagatas adolescentes ou muito jovens que representavam também papéis femininos mais direcionados a peças eróticas.

Wakashudō: "O caminho do jovem", é o mesmo que a pederastia grega entre samurais e aprendizes.

Kagemas: foram prostitutas masculinas que trabalhavam em bordéis especializados chamados "kagemajaya” ou casa de chá kagemas. Na fic optei por chamar somente de Casa de chá, por gostar mais dessa determinação.

Beijos a todos que ousaram experimentar essa minha loucura!

P.S: Próximo provável casal o também inusitado Aiolia x Mu.

Sion Neblina

Postado em 07/05/2012