Primeira de uma possível série de fanfictions
ambientadas no Japão feudal. Cada uma apresentará um aspecto cultural do Japão
do Período Edo ou Restauração Meiji e se unirão como uma só história, mesmo
sendo histórias paralelas, no entanto, cada fic terá seu tempo a ser produzida,
não dependendo uma da outra para ser compreendida. Entendam que quando eu falo
de aspecto cultural, isso não isenta o texto de possíveis “viagens mentais”
minhas, logo não esperem uma representação totalmente fiel e histórica aqui.
A
primeira é My Wakashu gata é uma história simples de amor, sem grandes dramas
que me veio à mente após ver a imagem que usei como capa. Claro que a imagem
não é minha, então todos os créditos vão para a talentosíssima fanartista.
Dessa vez, trago um casal superinusitado, eu
sei hehehehe, HYOGA X SHIRYU. Ainda assim, espero que tenham pessoas com mente
aberta o suficiente para ler e, gostando ou não, deixar um comentário.
Wakashu gata ou kabuki era o nome dado aos
atores jovens que interpretavam papeis femininos no teatro kabuki inicialmente,
onnagatas mais direcionados as apresentações eróticas e que muitas vezes se
prostituíam.
Obs. Não betado, perdoem possíveis erros.
My Wakashu gata
Memórias ilustradas do Oriente
Oceano pacífico - Século XVII
O navio seguia
atravessando o estreito e suas nervosas águas. A paisagem branca era de doer os
olhos e o frio intenso. Estava numa viagem perigosa há mais de 90 dias. Precisava
chegar ao Japão para buscar uma nova encomenda de bicho-da-seda. Era um negócio
lucrativo na época e que durante muito tempo uniu Europa e Ásia, desde a
conhecida rota, contudo, bastante perigoso.
Passar tanto
tempo embarcado, enfrentar o frio, a neve, os estreitos de águas turbulentas, a
sede e a fome, sem contar os terríveis ladrões de mercadorias, conhecidos como
piratas por muitos, não era algo totalmente racional; entretanto, conhecer
terras e culturas exóticas me fascinava e eu não pensei duas vezes em deixar
minha pequena província e me aventurar pelo mundo. No fundo, minha alma sempre
foi bastante aventureira e esse serviço, lucrativo, dava sentido à minha
existência.
Nos meus então
vinte e dois anos, pouco tinha feito da vida. Casei-me com uma moça da minha
terra. A desposei após meu retorno da capital, onde estudei o que meu dinheiro
pôde pagar, não muito; filho ilegítimo de um barão e uma cortesã, meu dote fora
apenas o dinheiro cedido por meu pai para que minha mãe desaparecesse com a
cria indesejada. Assim, ela deixou a Rússia e foi para a França onde cresci,
mais especialmente na província de Bern.
— Alexei,
avistamos terra firme! — alguém gritou tirando-me do trabalho de escrever em
meu diário de viagem naquela época.
Mirei o marujo
e sorri discretamente. Jabu era um rapaz cheio de entusiasmo e ficamos
relativamente amigos naqueles meses de viagem.
Fitei o
horizonte que, de onde estava, permanecia uma imensidão branca.
— Obrigado,
Jabu — respondi apenas.
Ainda
navegamos por mais dois dias antes de alcançar terra firme, mas todo duro
percurso foi compensado quando o cheiro verde do bambu e das cerejeiras
invadiram minhas narinas. Peguei minha bagagem e desembarquei vendo a
movimentação do porto; homens, mulheres e crianças executavam trabalhos
diversos. Eu ficava cada vez mais fascinado com aquela profusão de cores, os
chapéus diferentes, os cabelos escuros. Muito deles levavam às costas, sacolas
com toda espécie de erva.
Para um
ocidental como eu, embora ali, eu me aproveitasse do sobrenome, herdado de meus
avós maternos, para chegar a Edo, tudo era exótico e vivo, vivo e límpido como
não era mais a Europa que eu conhecia.
Estava no
Japão para negociar a compra de bicho-da-seda. Dizia-se que os japoneses eram
os melhores. Meu patrão tinha gastado uma soma considerável de dinheiro naquele
empreendimento e eu não podia fracassar. Devido a isso, meu nervosismo era
grande, não podia perder meu guia ou não chegaria ao meu destino final.
Abri novamente
o papel com as instruções dadas por meu patrão. “Dohko, senhor da província de
Nagasaki”. Guardei o manuscrito em meu bolso novamente e finalmente alguém
despertou-me a atenção. Era um rapaz de traços delicados e cabelos de
tonalidade estranha e maravilhosa, lilás. Ele possuía grandes e calmos olhos
verdes e dois sinais peculiares sobre os olhos. Informou-me que seu nome era Mu
e que eu deveria segui-lo. Mu usava trajes típicos orientais, algo que parecia
um vestido reto, de mangas longas e gola trabalhada, sobre uma calça do mesmo
tecido. Seus cabelos estavam presos somente na ponta e lhe caíam até a cintura.
Ele contou-me
que apesar de estar no Japão, o Daimyo
Dohko era chinês e se estabelecera ali como um rico proprietário de terra.
Soube também que chineses e japoneses tinham boas relações, e meu futuro senhorio
parecia ser bastante respeitado naquela região.
Mu era
simpático e muito educado, uma educação gentil e refinada, contudo distante,
que nós europeus não estamos acostumados. Surpreendi-me ao ouvi-lo falar
perfeitamente meu idioma e, mesmo que eu tenha me oferecido para falar o seu,
ele dispensou e disse que eu não precisava me incomodar.
— Senhor, o
carro nos espera — ele dissera e fez uma mesura respeitosa, me indicando o
caminho por onde eu deveria seguir. Foi uma grande surpresa encontrar um coche
bastante ocidental em Nagasaki. Contive a necessidade estranha de comentar
aquilo e nós dois seguimos em silêncio, um sentado de frente ao outro, mas sem
comentários. Preferi ficar mirando a movimentação da rua pela janela.
Eu ficava cada
vez mais deslumbrado com a paisagem verde das vastas florestas e as lavouras
coloridas, além de templos diversos e das brancas flores de cerejeira.
Chegamos a uma
estrada de pedra e eu logo pude vislumbrar a construção imponente cercada por
um rio de águas escuras. Os cavalos correram velozes pela ponte de madeira
polida e alcançamos à propriedade. Havia quatro soldados à porta, uniformizados
com trajes em tons vermelhos e levando um estranho chapéu sobre os cabelos.
Eles saudaram quando o tal Mu se anunciou e liberou a passagem do coche.
Chagamos ao
passo do han e descemos do carro. Eu
mesmo carregaria minha bagagem, mas Mu chamou um dos serviçais e orientou-o a
levar-me para o terceiro prédio logo atrás da construção maior e me mostrar
meus aposentos.
— Daimyo Dohko
está retornando de uma viagem, assim que ele chegar à casa do tigre o senhor
será chamado — falara Mu de forma gentil. — Este servo ficará a vossa
disposição. Em teu quarto há água para o banho e roupas também, mas caso
prefira suas roupas ocidentais, fique à vontade. Logo mais, serviremos a
refeição, se desejar, pode apreciá-la com o resto da família, ou em vosso
quarto, fica a vosso critério, senhor Yukida.
Apenas
agradeci e ele me deixou junto ao servo que me mostrou minhas acomodações. Eu
estava realmente exausto e faminto, mas nada seria maior que minha curiosidade
a respeito daquele lugar. Era minha primeira visita ao Japão e só o consegui
devido ao meu sobrenome japonês, sobrenome este que nunca havia valorizado e
que agora era o responsável pela melhor memória da minha vida. Meu sobrenome
foi herança do homem que me batizou como filho ao se casar com minha mãe. Não
sabia se havia de fato, sangue oriental em minhas veias, mas me vali dele para
ali chegar.
Banhei-me e
vestir-me nas roupas típicas que me foram deixadas. Pensei que dessa forma,
demonstraria mais respeito. Acho que consegui o que pretendia, pois todos que
passavam por mim se inclinavam em reverência.
Andei algum
tempo pelos jardins de flores exóticas e singelas, observando cada detalhe
delas. Ali tudo era belo e opulento.
Ouvi o cantar
tranqüilo de uma fonte e segui o barulho doce das águas. Acabei adentrando em
um bosque tão perfumado pela relva fresca que me fez sorrir. Era um recanto de paz
e harmonia. O silêncio e os sons da natureza se imiscuíam com perfeição.
Adentrei entre
os arbustos, sentindo o cheiro da relva mais forte, então encontrei a
cachoeira. Havia um jovem ali e eu estanquei surpreso e... fascinado de
imediato.
Ele tinha pele clara e longos cabelos negros
que lavava cuidadosamente nas águas límpidas. Vestia apenas uma calça típica
branca. Sua pele era suave e os olhos de longos cílios possuíam um tom entre o
azul escuro e o verde.
— Olá —
cumprimentei em meu idioma esquecendo-me momentaneamente que estava em outro
país.
— Olá,
estrangeiro, seja bem vindo ao Japão. Com certeza espera por Daimyo Dohko — a
voz dele era suave como o cantar das próprias águas; fiquei um pouco
entontecido e demorei a responder, deixando-lhe com um olhar curioso.
— Sim... —
resolvi falar em seu idioma. — Desculpe-me a invasão, estava admirando a
paisagem e acabei...
— Não precisa
se desculpar — a voz calma do rapaz voltou a falar enquanto ele pegava um
quimono sobre as rochas que emoldurava a cachoeira. — Que tal acompanhar-me num
passeio pela propriedade. Tenha certeza que há lugares ainda mais belos que
esse, chamo-me Shiryu — ele pós a mão aberta sobre o punho fechado num
característico cumprimento chinês que eu fiz questão de repetir.
Já havia
estado na china para reconhecer aquele cumprimento e, sendo povos vizinhos, não
estranhei que no Japão se fizesse igual.
— Yukida,
Alexei Hyoga Yukida — disse meu nome de maneira formal.
Shiryu sorriu
e eu fiquei um pouco atordoado pelo sorriso sereno dele. Aquele jovem me
provocava uma paz estranha. Algo revigorante em meu corpo cansado. Ele parecia
ter a essência calma das águas daquele lugar, a essência da natureza dentro de
si, seu olhar era límpido e calmo, seus gestos educados e graciosos, quase
feminis, sem contato perder o aspecto homem que brilhava no olhar engenhoso que
ele me lançava.
O rapaz chinês
sorriu e torceu os longos e lisos fios negros, os enrolando em um coque no alto
da cabeça. Depois pegou a parte de cima de um quimono e vestiu o dorso delgado,
prendendo-o com o cinto verde com cuidado e calma.
— Caso deseje,
posso mostrar-lhe a plantação, deves ter vindo por causa dos bichos-da-seda.
— Sim, foi
para isso que vim.
Ele apenas
assentiu e me deu passagem entre as árvores altas, bambus que exalavam aquele
cheiro exótico no ambiente. Shiryu seguia respeitosamente ao meu lado, fazendo
alguns comentários sobre a propriedade do nobre Dohko, explicando origem e
história. Contou-me que saiu da China criança e que estava a quase um ano em
Dejima, percebi que ele era um rapaz culto e refinado como poucos da sua idade
na Europa, e isso me alegrou, sempre fui intelectualizado demais para minha
província e era bom ter alguém com quem conversar.
Um riacho com
águas voluptuosas cantava enquanto caminhávamos e a voz de Shiryu parecia uma
melodia suave aos meus ouvidos, ela se unia ao canto do rio de uma maneira
harmoniosa e profunda. Era como se aquele rapaz tivesse a mesma essência da
natureza.
— Precisamos
passar por essa ponte — informou-me ele quando chegamos a uma armação de
madeira e cordas que cortava um precipício. Não era longa, mas a altura e as
águas tumultuosas do rio logo abaixo me levaram uma angústia ao peito.
— Fique
tranqüilo, a ponte é segura — ele pousou a mão em meu ombro num gesto impensado
e logo a retirou, corando visivelmente, coisa que não entendi muito bem naquele
momento. — Desculpe-me.
— Aqui no
Japão, os homens não se tocam? — perguntei numa curiosidade pueril que pareceu
espantar meu novo amigo, então me apressei a explicar-me: — No Ocidente é
normal trocarmos abraços, aperto de mão e cumprimentos afetivos, isso é
demonstração de amizade.
Shiryu ficou
com um semblante esquisito, analisando minhas palavras como se ouvisse algo
completamente novo.
— Bem, nessa
parte do Japão isso não acontece tão facilmente, principalmente a alguém como
eu...
— Alguém como
vós? Como assim?
— Shiryu?!!!
O nome do
jovem ao meu lado foi gritado por uma voz adolescente e estridente e logo um
rapaz de cabelos revoltos e castanhos se aproximava. Ele vestia apenas uma
calça marrom e estava suado e ofegante.
— O que
deseja, Tenma? — indagou Shiryu.
— Daimyo Dohko
mandou dar-te um recado — falou o menino ofegante. — Disse que deve pernoitar
na vila de Sao e que tu deves cuidar do Han e dos visitantes até que ele
retorne.
O jovem de
longas madeixas negras ficou pensativo por um tempo, mas quando voltou a falar
sua voz permanecia plácida.
— Obrigado,
Tenma, cuidarei de tudo.
Falou, mas o
jovem de olhos castanhos continuou parado com uma interrogação muda que obrigou
Shiryu a questioná-lo.
— Mais alguma
coisa?
— Ainda
teremos o teatro essa noite?
— Não, acho
melhor esperarmos por daimyo Dohko — sorriu Shiryu.
— Tudo bem
então, com licença — falou Tenma saindo correndo. Shiryu fez um gesto de cabeça
e chamou-me para atravessar a ponte, coisa que fizemos em silêncio.
A beleza que o
outro lado da ponte reservava era algo tão esplendoroso que doía os olhos.
Árvores com folhas douradas e avermelhadas e flores de cerejeira brancas e
rosa. Embrenhamo-nos na mata até chegar à plantação que nada mais era que um
imenso galpão de madeira onde as larvas habitavam.
— Como devem
saber, elas são alimentadas somente com folhas de amoreira o que garante a
qualidade dos fios — falou Shiryu indicando a grande quantidade dessas árvores
existente ali.
— Sim, meu
chefe ficará muito feliz, tenho certeza da qualidade dos fios.
Shiryu
assentiu e mirou o céu que começava a apresentar uma nuance rósea. — Devemos
voltar, logo cairá à noite, daimyo Dohko deve estar de volta amanhã pela manhã.
— Sim, claro —
concordei me afastando do local a passos rápidos. — Pena não ter o teatro hoje,
eu gostaria muito de ver como funciona o teatro.
— Sim, é mesmo
uma pena, mas quando daimyo Dohko retornar, poderá apreciá-lo.
— Adoraria,
mas creio não ter tempo.
— Daimyo Dohko
fará que mude de idéia, o senhor escolherá permanecer aqui.
— Não me chame
de senhor, acho que temos, mais ou menos, a mesma idade — sorri para ele, mas o
rapaz não retribuiu o meu sorriso. Achei tal atitude estranha e fiquei um pouco
constrangido, todavia, logo Shiryu começou a falar de coisas da cultura
japonesa que me fizeram esquecer tal sensação.
— Interessante
— murmurei enquanto o seguia pela ponte estreita. — Só não entendo como algo
tão belo como a cultura desse país possa ser privada dos olhos do mundo.
Shiryu sorriu
de lado e balançou levemente a cabeça. — O xogun teme que a abertura acabe por
fazer isso, que a influência Ocidental interfira em nossa cultura. Ele é
vassalo fiel do imperador e quer apenas proteger seu povo.
Eu apenas
sorri. Sabia que aquele jovem repetia o discurso que aprendeu ao longo da vida
e legitimava um governo autoritário, mas não estava ali para discutir política,
queria apenas meus bichos-da-seda e voltar a Europa. Estava feliz pelas
relações do meu patrão com a Companhia holandesa das Índias Orientais ter me
permitido chegar até ali.
Atravessamos a
ponte e Shiryu se despediu de mim, desejando-me uma boa noite de sono. Eu
desejei o mesmo e por um momento nossos olhos se encontraram e se perderam como
o navegante confundido pela névoa numa noite de tempestade. Precisei de todo
controle interno para não ceder ao alvedrio de erguer a mão e tocar-lhe a face
e aquilo deixou-me em estado tão perturbado de alma que logo me recolhi,
introspectivo e analítico aos meus sentimentos.
Tive uma noite
razoavelmente calma, sem sonhos, mas acordei algumas vezes, ouvindo o cantar
dos grilos e o vento que balançava os bambus que eu via pela janela e espalhava
o cheiro adocicado e inebriante daquela planta que se unia ao delicado das
flores de cerejeira.
Levantei-me da
cama e cobri-me com um robe, saindo a passear pelo passo sem grandes
pretensões, apenas aproveitando o clima ameno da noite. Foi então que eu o vi
sentado em uma das praças do han, seus cabelos ébano refletiam a lua cheia e o
vento o soprava e as pétalas das sakuras ao seu redor, desenhando um quadro
místico contra o céu escuro.
Fascínio,
sedução, um erotismo tão primitivo que minhas pernas tremeram... Ainda tremem.
Este caminho
Ninguém já o percorre,
Salvo o crepúsculo.
De que árvore florida
Chega? Não sei.
Mas é seu perfume
Ele me encarou
com o mesmo semblante tranqüilo e eu, como se movido por alguma força
desconhecida, aproximei-me e segurei-lhe as mãos, tomado por uma emoção
profunda. Era como se eu acabasse de encontrar algo perdido durante uma
tormenta em alto mar. Aquela imagem ficou tão nítida em minha mente que... É
como se o visse ao meu lado.
Lembrei-me da
frase que ele me dissera horas atrás e apertei com força suas palmas macias.
Seus olhos se voltaram para mim sem nada dizer, mas seu olhar tudo me dizia e
foi como imãs ou como náufragos sedentos que nossos lábios se encontraram e se
tragaram de forma intensa. Era uma sensação nunca experimentada, eu mergulhava
na umidade doce e quente dos lábios finos do rapaz chinês como se ele já me
pertencesse há séculos. Por quê? Nunca fui um homem dominado por lascívia e
nunca me tentou a possibilidade de me relacionar com outros homens. Eu era um
homem casado, cristão, por Deus! Minha esposa me esperava, embora nenhum amor
por ela ocupasse meu coração. Preciso foi que enfrentasse procelas até o Japão
para conhecer o ser que me arrebataria para esse mundo desconhecido, monstruoso
e inabitado do amor?
Shiryu partiu
o beijo, mas seus olhos não deixaram os meus, estavam brilhantes ainda mais se
possível, um mar estranho entre o azul profundo e o verde cintilante. Seus
lábios molhados e rubros se abriram levemente num sorriso casto e ele se
afastou, antes deixando os dedos escorregarem sobre meu rosto, até que apenas
as unhas o tocassem para depois o nada.
Ele partiu
vestido em seu quimono branco com o desenho de um dragão translúcido. Seus
cabelos esvoaçavam com brilho único fazendo a noite ter inveja de sua negrura.
Fiquei parado
apenas vendo-o partir com a elegância que nenhum homem ou nenhuma mulher jamais
teria. Ele era único, belo e exótico, um ser quase místico. Ao encará-lo,
perguntava-me se não estava numa das terras cantadas pelos primeiros navegadores,
terras cheia de encantos e erotismo. Os passos silenciosos de Shiryu, seu corpo
esguio e elegante, seus cabelos que ondulavam enquanto ele andava davam-me a
impressão de estar em um sonho.
Voltei para o
meu quarto e sentei-me a observar o luar fascinante que entrava por minha
janela. Uma inquietação calorosa me alegrava o ânimo e eu sorria relembrando o
beijo. Podia sentir seu calor em meus braços, sua pele macia, seu corpo
receptivo... Ah, Shiryu, como sinto falta das tuas mãos suaves e temperantes...
A porta se
abriu com um gemido. Um servo entrou, trazia uma jarra de porcelana. De forma
disciplinada e respeitosa, ele deitou a taça num prato e colocou sobre minha
mesa, retirando um copo de porcelana igual e me entregando. Com uma mesura,
pediu permissão para sair que concedi de imediato, curioso.
Já estava
pondo o vinho quando vi dentro do copo um pedaço de papel fino e cuidadosamente
dobrado em um origami de um cisne. Desfiz o harmonioso embrulho e me deparei
com algo escrito em delicadas letras japonesas, um poema:
Um jarro de vinho entre as flores,
bebo sozinho - nenhum amigo me acompanha.
Alço minha taça, convido a lua
e minha sombra - agora somos três.
A lua não bebe
e minha sombra apenas imita meus gestos.
Mesmo assim, são elas as minhas companhias.
É primavera, tempo de festa -
canto, a lua escuta e cintila;
danço, minha sombra se agita, animada.
Enquanto estou sóbrio, juntos estamos os
três;
quando me embriago, cada um segue seu rumo.
Selamos uma amizade que nenhum mortal
conhece.
E juramos nos encontrar no mundo além das
nuvens
Li Po
Sorri e
guardei o papel com cuidado. Bebi o vinho quente e realmente a noite tornou-se
alegre até que desacordei. No dia seguinte, meus olhos se abriram com o sol que
adentrava pela janela aberta. Levantei-me sentindo o gosto amargo do vinho e
ainda tonto. Fiz minha higiene matinal aproveitando a tina de água fresca e,
muito bem alinhado, deixei meus aposentos me ofertando ao sol da manhã.
O jovem de
cabelos castanhos chamado Tenma veio sorrindo ao meu encontro e me cumprimentou
de forma simpática.
— Daimyo Dohko
chegou durante a madrugada e o espera.
— Chegou
durante a madrugada e já está de pé? — estranhei o encarando.
— Sim, ele
dorme pouco, deseja que o senhor o acompanhe no desjejum.
O daimyo Dohko era um homem jovem, não
tanto quanto eu, mas era jovem, de cabelos avermelhados e tez amorenada. Olhos
verdes vivazes e fala rápida e descontraída. Fui muito bem tratado, acomodei-me
ao seu lado à mesa baixa e, embora tentasse retribuir a hospitalidade, confesso
que mal ouvia o que ele falava, queria mesmo era saber onde estava Shiryu e o
motivo dele não ter ido alegrar minha manhã com sua presença calma e
acolhedora.
Estaria
arrependido do beijo noturno? Estaria envergonhado? Estaria se escondendo?
Eu ainda era
por demais ignorante da cultura do país dos meus avós para entender aquelas
atitudes, mas sabia que era natural que os samurais se relacionassem entre si.
Havia o wakashudō e a escola Shingon, mas isso não deixava-me menos apreensivo.
— Perdão, senhor
Dohko — interrompi sem mesmo prestar atenção ao que meu anfitrião dizia. Ele me
olhou de forma curiosa e resolvi terminar logo com aquele olhar que me
inquietava um pouco.
— Ontem um
rapaz me recepcionou em sua ausência, seu nome é Shiryu, onde ele está nesse
momento?
Dohko ficou em
silêncio me encarando. Dentro das roupas tradicionais de samurai que era um
quimono de parte superior verde amarrada por um obi negro e calças igualmente
negras e largas, aquele homem possuía um ar venerável que, mesmo sendo gentil,
intimidava.
— Deve estar
recolhido ao seu dormitório, mas mandarei chamá-lo se assim desejar.
— Não é
preciso, só estranhei sua ausência — respondi, corando um pouco, sei.
Dohko se
ajeitou nas almofadas e sorriu. — Quando estou no Han, eu recepciono os
convidados e negociantes, isso não é função dele, apenas em minha ausência, ele
e Mu tomam essa função para si.
— Entendido.
Depois do
simples, mas nutritivo café da manhã, eu segui com o senhor Dohko para observar
o bosque e depois chegamos ao galpão de criação onde os servos já separavam
minhas vinte caixas, como exigira meu patrão. Tudo era feito com muita
disciplina, num verdadeiro ritual calmo que me fascinava assim como o vento que
soprava e dobrava as árvores bambus sem, no entanto, quebrá-las.
— Pedirei para
que um dos meus homens leve as caixas ao vosso navio, jovem Yukida — disse-me
Dohko gentilmente. — Gostaria que passasse a noite aqui na morada do tigre.
Apresentar-se-á um espetáculo peculiar que tenho certeza que o deixará fascinado.
— Do que se
trata? — perguntei realmente animado. Sempre fui um homem interessado em
conhecimento e cultura e a cultura oriental me fascinava profundamente.
— Teatro
kabuki, já vistes alguma vez?
— Não, mas me
interessa muito e sim, eu fico — sorriu verdadeiramente alegre com aquela
notícia. Adiaria minha viagem por mais um dia e acompanharia o teatro do senhor
Dohko àquela noite.
Voltamos para
o castelo quando o sol já estava se pondo, pois quanto mais conhecia a extensa
propriedade, mais fascinado ficava e ainda com mais vontade de conhecê-la e
desvenda-la. Dohko dizia que as florestas de bambus eram semelhantes as da
China e era o que mais gostava na morada do tigre.
Quando
finalmente voltamos ao castelo, o sol já estava se pondo. Rapidamente foi para
os meus aposentos, onde fiz minha higiene e me vestir com um quimono azul
escuro, cedido por meu senhorio. Mirei-me no espelho e percebi que, de certa
forma, algo do meu avô estava em mim naquele momento.
Dirigir-me ao
palácio e partilhei uma boa refeição junto a Dohko e seus convidados, mas a
ausência de Shiryu ainda me afligia. O que eu havia feito? Será que o nobre
jovem estava tão constrangido que não conseguia encara-me e só não rechaçara-me
na noite passada por sua fina educação?
Depois da janta,
seguimos para um grande salão em madeira clara onde o teatro se apresentaria.
Era uma apresentação particular de kabuki. Havia um palco baixo e de frente a
ele, várias almofadas onde os convidados do daimyo se arrumaram para assistir a
peça.
Quando as cortinas
se abriram, meus olhos se arregalaram confusos, à minha frente estava Shiryu, maquilado
e arrumado como os demais atores, mas era notório que ele representava um papel
feminino.
Entreabri meus
lábios, surpreso, meu coração disparou e senti a garganta seca. Shiryu parecia não
me ver, concentrado estava em sua apresentação.
Deus, nenhuma
mulher poderia ser tão perfeita e graciosa e senti uma emoção profunda quando
percebi que a cena que era contada, retratava o acontecimento da noite
anterior, o beijo que trocamos ao luar, mas não da forma casta como foi, mas
com certeza do modo erótico como deveria ter sido. A peça era de erotismo
elegante, mas indisfarçável. O quimono que Shiryu usava era escuro com desenhos
claros e deixava, muitas vezes, partes do seu corpo como ombros e pernas a
mostra. O ator que representava com ele, corria a mão por seu corpo e aquilo me
levava um incômodo incontido, ao mesmo tempo em que ver algo tão erótico entre
dois homens, impossível de se ver na Europa, esquentava meu sangue e agitava-me
o coração.
— O Shiryu é
quem escreve as peças, por isso não o viste hoje — confidenciou-me Dohko sem
tirar os olhos do palco, igualmente fascinado pela apresentação.
Fiquei um
tempo sem ação mirando os gestos graciosos do onnagata no palco. Ele era todo delicadeza na dança que empreendia
assim como o cuidado de representar um difícil papel feminino ele que, apesar
de elegante e educado, não possuía modos feminis. No palco, todavia, Shiryu se
transformava em uma verdadeira gueixa.
— Como isso é
possível? — permitir-me murmurar e os olhos vivazes de Dohko se voltaram para
mim.
— A prática Onnagata está proibida, somente nobres
de fina estipe, como eu, podem apreciá-la em privado. Mesmo com a proibição há
muitos teatros espalhados por Edo, Kioto e Nagasaki, os japoneses não abririam mão
de uma de suas maiores tradições.
— Você não
abriu mão, não é? — disse com um incomodo estranho batendo em meu peito. Agora
compreendia o que Shiryu dissera com a palavra “um homem como eu”, ele era um onnagata, uma gueixa, com certeza também
uma propriedade do daimyo Dohko.
Dohko sorriu
de lado, acho que para ele, era fácil reconhecer aquele sentimento de ciúmes
que brilhava nos meus olhos; o daimyo
me diria depois por carta que achava estranho que eu nutrisse tal sentimento
sem ter visto Shiryu dançando antes, geralmente o jovem chinês era discreto e não
se aproximava dos estrangeiros que visitavam suas terras. Isso foi para mim
mais uma prova do misticismo do nosso
encontro.
O que Dohko não
sabia era que algo insólito e mágico aconteceu a mim no momento que encarei
aqueles olhos enigmáticos. Algo inesperado, mas que, de fato, coloriu-me a
vida.
O daimyo ocultou seus pensamentos e deixou
que a apresentação seguisse. Depois que as cortinas do teatros se fecharam, os
convidados foram para um grande salão onde eram servidos por rapazes de yukatas e pintura nos rostos. Fiquei
fascinado com aquilo, pois era algo tão natural que ninguém parecia se
incomodar com os modos delicado deles. Todos vestiam-se com quimonos claros e
tinham longos cabelos. Cada um deles carregavam garrafas de vidros ornadas com
barbantes e pedras que serviam o saquê aos convidados.
Eu fiquei com
as costas apoiadas em uma da paredes de madeira sem saber o que fazer e com
medo até de mover as mãos. Tudo era erotismo, uma sensualidade respeitável e
delicada como as sakuras que se sacudiam à luz noturna. Um cheiro inebriante e
doce alcançou minhas narinas e de repente enxerguei em um dos corredores uma
tênue luz que oscilava, demonstrando claramente que alguém andava segurando um
candeeiro.
Sem saber o
motivo, movi-me atrás daquela luz oscilante, seguindo pelo corredor. O aroma
doce pareceu ficar mais forte quando eu entrei em um quarto. A luz oscilante
desvendou a figura de Shiryu. Ele estava de costas para mim e acendia algumas
velas tranquilamente. Não soube o que dizer, sentia minha garganta seca ao
mirá-lo, quase místico, contra a luz amarelada.
— Shiryu...
— Não fale
nada, Alexei — ele disse simplesmente com sua voz calma e virou-se, começando a
se aproximar de mim. — Quero apenas uma nova porção...
Deus, eu
estava apaixonado como um marujo que escutava o canto de uma sereia. Tomei-o
nos braços, apertando-o e envolvi seus lábios finos e macios com os meus mais
uma vez. Shiryu gemeu e deixou-se consumir em meu fogo, permitindo que o roupão
branco que vestia deslizasse por seus ombros, desnudando o corpo masculino, mas
esguio e suave que ele tinha.
Deixei meus
dedos correrem por seus ombros e braços enquanto meus lábios marcavam o pescoço
com devoção, ele o inclinou para atrás permitindo a exploração daquela parte
sensível, mas sem emitir nenhum som, apenas fechou os olhos numa expressão de
prazer.
Chegamos ao futon
entre beijos e carícias sôfregas e eu me permiti tudo ainda um tanto inebriado
pelo cheiro das flores e a letargia do saquê. Meus lábios queriam absorver a
doçura daquela pele, marcar cada detalhe daquela cútis perfeita. Shiryu gemeu
de leve e arqueou as costas, afundando os dedos em meus cabelos loiros,
chamando meus lábios para que devorassem seus mamilos intumescidos. Minha
língua traçou um caminho de saliva até seu umbigo, brincando com aquela
cavidade perfeita, mordisquei logo abaixo dela e deslizei a lâmina pela perna até chegar aos dedos
dos pés. O jovem chinês soltou um ofego e eu pude ver um meio sorriso escapar
da sua expressão de mártir, então subi novamente meu corpo sobre o dele e
tomei-lhe os lábios com um fogo que consumia-me inteiro e foi capaz de acender
a chama naquele asceta que eu tomava. O calmo rapaz oriental segurou-me pelos
cabelos e roçou seu corpo em mim. Pude sentir sua ereção pulsar contra minha
coxa. Eu me afastei para mirar seus olhos escurecidos e ficamos nos encarando
na penumbra por um tempo. O homem de longos cabelos negros esticou o braço e pegou
um pequeno frasco que logo soube possuir um óleo aromático e o entregou em
minhas mãos. Eu não era tão ingênuo para carecer de informações sobre suas
aplicações, rapidamente besuntei meus dedos sentindo o corpo ainda mais quente
com aquela fragrância doce e afrodisíaca, enfiei o primeiro dedo dentro de
Shiryu sentindo-o estremecer e gemer baixo, fiz o mesmo com o segundo sentindo
meu membro pulsar com cada vez mais vigor, invejosos com as investidas que meus
dedos davam no corpo do belo onnagata.
Não mais
controlando minha excitação, deixei o corpo de Shiryu e molhei meu pênis com o
óleo, para em seguida erguer as pernas do meu Wakashu e entrar nele de forma
lenta e contida, sentindo o estremecimento do seu corpo e a involuntária
contração que tornava o ato ainda mais prazeroso.
Shiryu era tão
silencioso que eu me permitia olhar seu rosto com cuidado à medida que entrava
nele, com medo de machucá-lo e ele não gemer com isso. Depois saberia que ele
fora habilmente treinado para aquilo, era um Wakashu gata, que aprendeu a arte da sedução e do sexo muito cedo, mas
depois, mais adiante falarei sobre isso, agora quero apenas relembrar a emoção
de possuir aquele corpo belo, exótico e ao mesmo tempo proibido...
Entrei por
inteiro nele, gemendo extasiado quando conseguir chegar ao fundo do seu corpo.
Shiryu deixou escapar um gemido mais alto quando comecei a me movimentar. Eu me
inclinei sobre ele, beijando-lhe os lábios e aumentando ainda mais nosso
contato. Nossas peles já estavam cobertas por uma camada fina de suor e
deslizavam quentes de encontro uma a outra.
— Alexei... —
ele murmurou enquanto eu entrava e saía com cada vez mais ímpeto e ouvir meu
nome dos lábios agoniados de prazer dele, foi capaz de inflamar todas as minhas
terminações nervosas.
Movi-me mais
forte, tocando fundo meu amante que gritou e cravou as unhas curtas em meus
ombros. Nossos olhos úmidos se encontraram e ele deixou escapar um sorriso
cansado e contemplativo. Sorri também apreciando a linda visão daquele rosto e
ele jogou a cabeça para trás se contorcendo de prazer e gozando, encharcando
nossos corpos com seu sêmen. Sentindo-me tragado para as profundezas do corpo
exótico do meu amante, eu também atingir um orgasmo poderoso e cair sobre ele,
ofegante, satisfeito e apaixonado.
Sim, eu me
apaixonei. Apaixonei-me por aqueles olhos calmos, sábios e contemplativos.
Apaixonei-me por seus lábios finos, macios e receptivos. Apaixonei-me por seus
gestos tão elegantes e naturais, feminis no palco, mas tão dignamente
masculinos fora dele.
Descobri que
um onnagata, como Shiryu, eram homens educados e preparados para uma vida de
renúncias. Não eram apenas atores, estavam fadados à prostituição e a serem
tratados como objetos. Deveriam se portar com a elegância de uma gueixa e a dignidade
de um samurai. Muitos deles eram perseguidos e assediados como se realmente
fossem prostitutas, mesmo os que não eram. Alguns preferiam vestir a personagem
feminina fora dos palcos e viver de favores dos seus patronos. Shiryu no
estando, preferia não se portar como uma mulher fora do palco e embora tivesse
Dohko como patrono pessoal, este o respeitava e acolhia como um verdadeiro pai.
O jovem chinês
tinha uma devoção e gratidão profundas pelo senhor daquele han, pessoa bondosa
que o acolheu e livrou-o de ser explorados como os kagemas nas casas de chá.
Ali, ele era um ser humano e viva relativamente feliz, embora alegrar daimyo e
convidados ainda fosse uma das suas obrigações. Liberdade não tinha.
Isso tudo ele
me contou naquela única noite que, após nos amarmos, ficamos olhando as
estrelas abraçados à beira do riacho de verdes águas, ouvindo o cantar dos
animais noturnos e mirando o céu com uma esperança que não sentíamos.
— Eu amo você
— permitir-me dizer, embora aquilo nada dissesse. Era insano, pois nos conhecíamos
há pouco mais de 24 horas.
E sendo
insano, por que o amor pulsava em mim daquela forma?
Envolvidos em
meus braços e também no quimono de seda branca com figura de um dragão que
deslizava, desnudando a pele alva do ombro. Shiryu sorriu e apoiou seus sedosos
cabelos negros em meu peito.
— Amo-te
também — ele disse e nenhum dos dois careciam de explicações ou promessas.
Explicações de
como aquilo ocorreu, promessa de uma vida que nunca existiria para nós.
Ele
permaneceria no Japão do Shogun, onde, provavelmente, eu nunca mais poderia entrar,
e eu estaria na França e sua corrida pelo progresso.
Estávamos
cônscios da falácia da nossa vida, mas sabíamos que essa mentira era tudo que
tínhamos e que nossa verdade de amor repentino, primaveril, único e impossível,
seria a brisa que nos acompanharia nos dias difíceis e nos invernos glaciais
das nossas existências vazias.
Amamo-nos mais
uma vez à beira do lado e depois voltamos para nossas acomodações. O han de
Dohko já dormia, os homens estavam com seus kagemas contratados para alegrar a
noite, rapazes trazidos de uma bela e requintada casa de chá em Edo, como soube
depois.
Falamos de
nossas vidas. Ele me disse que amava a arte da espada e eu confessei que tinha
por hobby desenhos a carvão. Falamos todas aquelas coisas corriqueiras e sem
importância, mas que representam tudo que o ser humano pode ter de mais
precioso e profundo. Aquele foi o nosso momento de estrelas, nosso momento
preciso.
Quando o sol
nasceu e o cheiro das flores invadiu meus aposentos. Uma ânsia de morte
tomou-me o corpo. Eu estava vestido, o carregamento já tinha sido embarcado e a
tripulação me esperava. Fui firme e seguir em frente.
Despedir-me de
Dohko que sorriu compassivo, claro que ele sabia! Meus olhos buscaram por algo,
dentro da casa, mas nada vi.
Partir,
cheguei à França com a lembrança daquela noite somente. Doce lembrança que
acompanhou meus dias e acompanhará os vindouros se eles ainda vierem.
Ele nunca me
escreveu. Não sei se lhe era permitido tal ato, mas minhas únicas informações ao
seu respeito, essas que nunca eram muito claras, vinham de Dohko que disse-me que
após um tempo, Shiryu lhe rogou que o deixasse partir para uma parte remota da
China. Também não sei se isso é verdade, como haveria de saber estando tão distante?
Entretanto a memória dos seus toques e sorrisos permanece viva em minha pele,
lábios e mente.
Estou doente
enquanto escrevo essas últimas memórias, provavelmente esse é o último capítulo
do diário de minha vida e só por isso as escrevo. Para que, se vier a morrer,
alguém saibam que eu, Alexei Hyoga Yukida, estive no Oriente na aurora da minha
vida e me apaixonei pela primeira e única vez. E que embora, somente uma noite
constituísse todo nosso envolvimento, esta noite marcou minha alma a fogo
eternamente.
Meus dois
pequenos filhos estão ao meu lado e eu sorrio para eles, sei que desejam que eu
deixe a pena, mas ainda escreverei um pouco mais, deixarei um novo desenho, novo
esboço dos meus sentimentos nesse livro de memórias já repletos deles. Meu
único bem, depois desses dois pequenos seres que me apertam os ombros e
enche-me os olhos de esperança.
Que eles
tenham a felicidade que só tive no lapso de um instante.
Então, antes
que tudo se apague, deixarei aqui, um pouco mais da memória inesquecível do meu
Wakashu gata, Shiryu, meu único,
verdadeiro e grande amor.
Deixarei essa
pequena história ilustrada para que um dia, esses dois pequenos anjos ao meu
lado saibam que eu mesmo que por em uma noite, permitir que o amor, o perfume e
a suavidade da brisa oriental preenchessem meu coração e mesmo que isso tenha
sido apenas um parêntese no tempo, ainda será pela eternidade a grande memória
da minha vida.
Fim
Obs. As imagens não me pertencem, usadas sem fins lucrativos assim como os personagens de cavaleiro do zodíaco.
Glossário de termos japoneses:
Shogun: Era o senhor feudal que centralizava
o poder no Japão no período Edo ou Era Tokugawa.
Edo: Centro do império, onde habitava o
Shogun ou Xogun, atual Tóquio.
Obi: Cinto que prende o quimono.
Daimyo: Poderosos senhores feudais que
apoiavam o xogunato.
Han: “Domínios” as propriedades desses
senhores feudais, ao modo do feudalismo europeu.
Onnagata
ou Oyama: Atores que representavam
papéis femininos teatro Kabuki.
Wakashu
kabuki ou wakashu gata: Onnagatas adolescentes ou muito jovens que
representavam também papéis femininos mais direcionados a peças eróticas.
Wakashudō: "O caminho do jovem", é
o mesmo que a pederastia grega entre samurais e aprendizes.
Kagemas: foram prostitutas masculinas que
trabalhavam em bordéis especializados chamados "kagemajaya” ou casa de chá
kagemas. Na fic optei por chamar somente de Casa de chá, por gostar mais dessa
determinação.
Beijos a todos que ousaram experimentar essa
minha loucura!
P.S: Próximo provável casal o também
inusitado Aiolia x Mu.
Sion Neblina
Postado em 07/05/2012






