In memory of a great love
By
Sion Neblina
Hoje estou olhando para as flores de cerejeira que começaram a florescer. É uma bela manhã de primavera e sinto o frescor da brisa matutina em minha pele. Sempre gostei de sentir a brisa da manhã, não importa o quanto a manhã estivesse fria, essa brisa inicial era a garantia de um dia agradável, isso desde minha tenra e pobre infância. Miro meu irmão que está concentrado no trabalho de escrever enquanto ouço o cantar dos pássaros e admiro a paisagem e o calor agradável da manhã.
O que mais me lembro da minha infância eram das casas brancas de telhados vermelhos e com macieiras no quintal. Ele sempre roubava maçãs pra mim. Éramos muito pobres naquela época e as maçãs eram caras, mas éramos felizes, acho que foi realmente quando fomos de fato felizes porque a felicidade da infância é sempre mais plenas, mais forte, e quando nos tornamos adultos tudo muda, o mundo se torna mais complicado.
Desde a infância, Shun sempre foi o único capaz de me fazer bem, a única pessoa com quem conseguia me abrir, a única pessoa que eu amava incondicionalmente fosse ele bobo, frágil, sutil, chorão... Ele sempre foi toda a minha vida e eu sempre vivi para fazê-lo feliz.
O que me lembro da infância era que eu adorava correr em direção ao pôr-do-sol porque simplesmente ele nunca chegava, nunca, e isso me trazia a esperança de que um dia conseguiria alcançá-lo, vencer aquela pobreza e dar roupas melhores, uma vida melhor ao meu irmão e a minha mãe.
Meu pai nunca conheci, mamãe dizia que ele morreu na guerra, mas isso não me deixava triste, porque eu tinha meu nii-san. Até os 10 anos, ele foi meu pai, meu herói, tudo que um dia eu quis ser.
Quando completei 12 anos, o Ikki foi convocado para o exército. Chorei muito sob uma cerejeira naquela tarde. Chorei como não chorava desde os seis anos. O exercito para mim era o mesmo que o cemitério; meu irmão morreria, assim como o meu pai foi tirado de mim antes que o conhecesse.
Procurei por Shun o dia inteiro e não o encontrei. Também não estava feliz em ter que ir para o exército, não me imaginava recebendo ordens e matando pessoas, mas era minha obrigação, ainda mais, o soldo que receberia era superior ao salário miserável que eu ganhava em uma fábrica de automóveis, ajudaria minha mãe a dar uma vida melhor ao meu pequeno irmão e isso era tudo que eu conseguia pensar, mas doía, doía ter que deixá-lo pela primeira vez, doía abandonar tudo que eu amava e com a chance de jamais voltar a reencontrá-los.
Eu mirava o riacho que passava pelo fundo da nossa pequena propriedade. Havia uma ponte de madeira que eu adorava sentar enquanto meus pés brincavam com a água. Estava fazendo isso, congestionado de tanto chorar e ainda sentindo os espasmos dos soluços, quando senti a mão quente de Ikki em meu ombro. Eu sempre reconheci a mão dele, não importava quantas camadas de roupas eu vestisse, ainda assim sentiria o calor da sua mão.
Meu coração doeu quando os olhos verdes de Shun me encontraram. Ele se ergueu e se jogou em meus braços chorando.
— Não quero perdê-lo... — ele soluçava — Fica comigo, Ikki...
Eu afaguei os cabelos castanhos do meu pequeno e me ajoelhei para ficar do tamanho dele. Naquela época eu era muito mais alto.
— Você não vai me perder, Shun, não se preocupe, irmão, eu sempre fecharei seus olhos antes de você dormir, sempre, sempre...
Eu sorri com as palavras de Ikki porque acreditava em tudo que ele me falava. Ele sempre me contava histórias antes de eu dormir e como eu insistia para ficar acordado até tarde, meu irmão se inclinava sobre mim e fechava meus olhos, seus dedos brincavam com meus cílios longos fazendo um carinho e eu logo adormecia.
Eu olhei dentro dos olhos do meu nii-san e pela primeira vez tive coragem de fazer o que já pensava há certo tempo, inclinei-me e beijei levemente seus lábios.Fiquei em choque quando sentir os lábios macios de Shun contra os meus, olhei dentro dos seus olhos, mas não o afastei. Foi um toque lento, carinhoso, completamente puro. Puro como era meu anjo.
Ikki não correspondeu ao beijo, mas também não se afastou, continuou com os lábios contra os meus até que saí daquele encontro e o abracei.
— Volta pra mim, irmão... — pedi desesperado.
— Sim, eu volto. Eu prometo que volto. — Ele respondeu.
Parti dois dias depois daquele beijo. O que eu posso contar da guerra? É o horror, o espetáculo mais grotesco que alguém poderia imaginar e sim, ela muda um homem, transforma-o, deforma-o completamente.
Quando voltei para casa era mesmo uma sombra do que fui e não somente pela cicatriz que ganhei no rosto, mas sim a cicatriz profunda que qualquer guerra deixa em um homem, a cicatriz da crueldade e da loucura.
Foram 4 longos anos matando em nome da Pátria, torturando, destruindo, saqueando...
Será que haveria ainda alguma humanidade em mim?
A primeira coisa que fiz ao chegar a minha cidade foi tomar um porre em um bar degradado e me meter em uma briga. Não me sentia digno de olhar nos olhos do meu pequeno irmão e falar das barbaridades que fui capaz de cometer, não podia...
Passei hora pensando em fugir para sempre, mas a voz de Shun sempre invadia meus pensamentos:
“Volta pra mim, Ikki” ele pediu e eu não poderia negar, eu nunca mentiria para ele.
Forcei-me a me arrastar para casa, ainda saberia o caminho? Sabia. Era o caminho que me levava a Shun.
Minha cabeça sangrava por causa da briga e eu tinha hálito de uísque barato quando bati na porta. Uma luz se acendeu...
A porta da nossa casa tinha várias trancas. Mamãe havia providenciado porque era perigoso uma viúva e um menino dormirem sozinhos numa casa afastada da cidade. Por isso eu demorei a abrir. Era inverno, a neve cobria todos os cantos da rua. Quando abrir a porta, senti o vento frio arrepiar minha pele e dei um passo para trás, mirando aquele homem que fedia a bebida, sangue e suor. Não o reconheci! Deuses! Eu não o reconheci de imediato, mas quando ele falou, meu coração bateu com tanto desespero que eu quase caí.
— Shun, sou eu...
Ele não era mais um garotinho, agora parecia um homenzinho delicado e amedrontado. Seus grandes olhos verdes me olhavam com pavor e esperança. Ele vestia um pijama e uma manta grossa e parecia indeciso se deveria ou não me deixar entrar.
— Ikki... — eu balbuciei incrédulo, sentindo uma terrível vontade de chorar e não a repeli, chorei, chorei e me agarrei a ele, tentando acreditar que aquilo era real.
Shun colou seu rosto contra meu peito, agora não era mais preciso que eu me ajoelhasse, ele cresceu, era quase um homem, mas ainda era puro, ingênuo, completamente diferente de mim. Ele chorava e eu chorei também em seus braços. Chorei toda a dor daqueles quatro anos de saudade e desespero. A dor do remorso por todos meus crimes de guerra.
Ele me puxou para dentro da casa e fechou a porta. Ajudou-me a me livrar do casaco pesado que vestia e com uma toalha e água morna começou a limpar meu rosto e meus cabelos sujos de sangue delicadamente. Ele não fazia perguntas, ele nunca gostou de falar de guerras, mortes ou qualquer assunto que não fosse sobre coisas belas, poéticas, amáveis, assim como ele o era.
Eu não queria demonstrar, mas estava assustado, estava assustado com o silêncio do Ikki, estava assustado e desesperado com a possibilidade de ele não ser mais o MEU Ikki. O que aquela maldita guerra poderia ter feito com o meu gentil irmão? Não quis perguntar nada, ele parecia tão triste e exausto. O levei para o nosso antigo quarto e depois levei uma bacia com água quente. Ele se lavou, vestiu um pijama e se deitou em sua cama. Quando o nii-san adormeceu, sua expressão serenou e eu rompi a madrugada o olhando dormir, rezando a Deus para que aquilo não fosse um sonho.
Acordei no dia seguinte e senti os músculos reclamarem, mas senti também o agradável odor de pão recém saído do forno e café. Caminhei em direção a cozinha e encontrei Shun cantarolando de costa, enquanto lavava maçãs. Sorri com a cena e não sei o motivo, até hoje me pergunto que instinto foi aquele, eu me aproximei e o abracei pelos ombros, beijando seus cabelos. Meu irmão se sobressaltou e deixou as maçãs caírem. Eu corei com isso e me afastei sem jeito; pensava que Shun deveria me considerar um estranho, um intruso e não mais seu irmão.
— Desculpe, eu não queria assustá-lo. — Disse constrangido.
Eu olhei nos olhos escuros de Ikki e vi todo seu medo, sabia que ele se sentia um invasor, um estranho e isso me fez corar; o que eu havia feito? Estava rejeitando meu irmão? A pessoa que mais amava em minha vida? Meu melhor e único amigo? Imediatamente joguei-me em seus braços como outrora e senti Ikki afagar meus cabelos.
— Desculpa, irmão — disse emocionado —, você não me assustou, eu te amo.
Aquelas palavras me confortaram e eu suspirei enquanto acarinhava os cabelos macios do meu irmão. Era incrível como sentia paz nos braços do Shun, ele era a única pessoa com quem conseguia ficar completamente tranqüilo, com quem sentia completa paz. Com as demais pessoa era frio, distante, arredio, somente Shun possuía meu carinho, mais ninguém.
Tomamos nosso primeiro café juntos depois de quatro anos e falamos da mamãe. Ikki já sabia que ela morreu no inverno do ano anterior, havia sido avisado e sua dispensa do exército chegou mais cedo devido a isso, por ele ser o único responsável por um garoto de 16 anos. À tarde fomos ver o lago, nosso velho palco de brincadeiras; eu estava tão feliz, tão radiante por ter meu irmão de volta, mas percebia o quanto o Ikki estava devastado, o quanto a guerra o havia ferido profundamente. Decidi que a partir dali seria minha a missão de fazê-lo esquecer de tudo aquilo. Eu queria ser feliz, viver feliz com o meu irmão, com o meu amor. Embora soubesse que isso era proibido e pecaminoso, então viveria apenas para fazê-lo sorrir novamente.
Shun era dono de uma essência tão especial, tão pura que me fazia esquecer temporariamente das minhas dores e minhas culpas. Durante aqueles quatro anos, eu vivi com a lembrança daquele singelo beijo que ele me deu e foi essa lembrança que me fez mais forte e que me fez suportar os horrores da guerra. Eu não queria pensar que aquilo era pecado, que era errado ou que seríamos condenados ao inferno. Eu sabia que meu pequeno irmão me amava e eu também o amava com todo o meu ser, com toda a minha força. Entretanto, não me sentia digno dele, não me sentia digno de tocá-lo depois de cometer tantos pecados. Sentia-me sujo, vil, errado, e ele... Ah, Shun, Deus me perdoe por querê-lo tanto, por pensar tanto em ti de formas desonestas, mas sim, eu penso, penso e me penitencio por pensar assim, penso e morro por querê-lo tão intensamente, meu pequeno anjo, sei que há muito tento me livrar dessa culpa, mas às vezes me pergunto se todos nosso problemas não seria uma espécie de castigo? NÃO! Eu prometi a Shun que nunca mais pensaria a isso, eu vou cumprir Shun até o fim, eu prometo!
Paramos na velha ponte de madeira coberta de neve. Estávamos bem agasalhados, era tarde e podíamos ouvir o barulho de gotas que caiam da neve que derretia sobre a árvore seca perto do lago. Eu sorri para meu irmão e ele me retribuiu um sorriso fraco. Deus! Sua alma estava tão cansada, tão amargurada...
O abracei pela cintura. Sim, eu havia crescido, mas ainda era bem menor que Ikki, meu rosto pousou exatamente em seu peito e eu fechei os olhos com força, sentindo o seu calor e as batidas do seu coração.
Eu afaguei-lhe os cabelos sedosos que estavam bem mais longos; fechei os olhos também enquanto mergulhava os dedos naquela maciez. Shun ofegou e nada disse por muito tempo. Sentíamos o ar frio e parado a nossa volta e só prestávamos atenção um ao outro.
“Eu te amo, Ikki” O ouvi dizer e meu peito foi tomado de um calor tão intenso e profundo que eu o apertei nos braços a ponto dos seus ossos rangerem. Será que Shun sentia como eu sentia? Será que ele me queria como eu o queria?
Depois de minutos nos afastamos calados, eu sentia o vento e o frio se intensificarem e o protegia em meus braços, até chegarmos a nossa velha casa de piso de madeira e lareira de pedra. Aticei o fogo enquanto ele se livrava dos casacos pesados e das luvas e botas úmidas e falava coisas gostosas, coisas que adorava ouvir.
Eu fui para a cozinha e servi o jantar na sala. Uma vitela com molho de alecrim que Ikki adorava. Escolhi um licor que há muito tinha guardado e que era um dos poucos luxos que minha vida humilde naqueles quatro anos deixou que adquirisse. Na verdade eu sempre o guardei para a volta do meu irmão, eu sabia que ele voltaria um dia e eu esperaria eternamente se fosse preciso.
Jantamos conversando descontraidamente. Ikki não era de muitas palavras, mas até que estava bem solto, bem mais que o normal. Talvez fosse o calor do licor de damasco que bebíamos, talvez fosse somente a sensação de ter alguém que se preocupava, que sentia falta, o certo é que ele estava muito mais caloroso naquela noite do que foi nossa vida toda.
Depois do jantar nos sentamos no grande tapete felpudo, e eu me encolhi sob o cobertor enquanto Ikki continuava atiçando o fogo da lareira, preso por alguns instantes em seus próprios pensamentos. Para mim bastava ficar olhando para ele, admirando seus traços másculos, tão diferentes dos meus. Quem nos olhasse nunca pensaria que éramos irmãos; Ikki era tão másculo, tão forte, e eu... Eu parecia mais uma criança crescida naquela época, mas eu soube que ele me achava lindo e isso me bastava.
Nossos olhos se encontraram enquanto eu atiçava o fogo, eu sorri pra ele e ele devolveu o meu sorriso. Quando vi que a sala estava realmente aquecida, me aproximei de Shun e sentei ao seu lado o puxando para que recostasse a cabeça em meu ombro. Não sei muito bem como aconteceu, mas no momento seguinte nos beijávamos com paciência e carinho, os lábios se tocavam de leve, trêmulos, só eles por muito tempo, até que as línguas se insinuaram, saboreando a boca um do outro.
Quando senti o sabor dos lábios do Ikki, tive a certeza que foi por isso que esperei toda a minha vida. Apesar do desejo que pulsava em cada veia, não tínhamos pressa, esperamos tanto por aquele momento, por aquela entrega. Na verdade, sempre soubemos, sempre tivemos a certeza de que éramos almas gêmeas, que viemos ao mundo para pertencer um ao outro, então nada era estranho, nosso corpo desconhecia, nossa alma clamava...
As roupas não foram empecilho para os nossos sentimentos, nos despimos sem pressa, sem deixar o contato do olhar, sem deixar de sentir o pulsar do corpo inflamado pelo olhar repleto de desejo do outro, é impossível explicar com a escrita o que eram os olhos do Shun, duas esmeraldas brilhantes e lacrimosas que resplandeciam em um rosto de marfim e que me faziam enlanguescer. Toquei-o com cuidado, as pontas dos dedos explorando aquela pele tão alva e perfeita, não me sentia digno de tocá-lo, Shun era tão puro, tão perfeito e eu carregava tantas culpas, tanta amarguras...
Tencionei retirar os dedos, mas ele segurou minha mão e beijou cada um deles com carinho e sensualidade, perdi a capacidade de raciocinar, o puxei pra mim com mais ímpeto e mergulhei na cavidade úmida que era sua boca, sugando sua língua e sentindo-o tremer e gemer no beijo, enquanto seus dedos se enrolavam em meus cabelos de forma carinhosa e ele passava uma perna sobre as minhas, para se encaixar em meu colo.
Eu o amava! Amava, sempre amei! Ikki era meu tudo, minha vida, meu homem, meu fôlego de existência, e eu faria tudo por ele, por ele eu me despiria de qualquer preconceito, por ele eu me entregaria a fogueira da inquisição sem medo. Toquei a pele do peito bronzeado e largo com carinho e me aconcheguei em seu corpo, meu irmão me apertou com força em seus braços, como se quisesse nos fundir como um só...
Sentia o corpo magro de Shun contra o meu, seu calor, sua maciez. Eu devorava seus lábios com ânsia e delicadeza na mesma medida, com um amor sem limites, um amor que me fazia querer ser um só com ele. Lembro-me com perfeição a primeira vez, o calor, a sensação de plenitude, o gozo, o aconchego em seus braços. Era a primeira vez que me sentia vivo depois de quatro anos.
“Eu te amo, sempre te amei” ele me falou num sussurro preguiçoso, enquanto se aninhava em meu peito largo e ressonava como uma criança.
“Eu também te amo...” murmurei e fechei meus olhos me entregando aquele amor proibido e tão intenso, tão devastador.
Vivemos um inverno perfeito, apaixonado. No inverno as pessoas não saem muito de casa e passávamos o dia inteiro juntos. Ikki cortava a lenha pela manhã e aquecia a casa enquanto eu preparava nosso café. Não fazíamos indagações sobre certos e errado, sobre o fato de sermos homens e irmãos, não nos preocupávamos ou fingíamos não nos preocupar. Vivíamos aqueles dias frios como uma dádiva divina; tínhamos uma casa aquecida, boa comida, agasalhos e um ao outro. Não precisávamos de mais nada para ser feliz, estávamos completos.
Passávamos os dias entre beijos e declarações de amor e tudo parecia tão perfeito, tão intocável, era realmente tão bom estar em casa; Shun, minha casa, minha vida, meu doce irmão, meu delicioso pecado.
O inverno passou e chegou a primavera. A cidade voltou ao seu movimento normal, e Ikki foi obrigado a procurar um emprego enquanto eu voltei a freqüentar o colégio. Não houve problemas no início, as pessoas aceitavam-nos como irmãos, elas nunca poderiam desconfiar que dividíamos a mesma cama. Ikki ia me buscar todos os dias na escola, e todos o viam como um bom e dedicado irmão, mas sabíamos que éramos mais que isso o que de certa forma incomodava... Era tão errado amar, para que vivêssemos nos escondendo como criminosos?
Não puder gritar para todos que nos amávamos era difícil, mesmo porque, não nos sentíamos culpados de nada, era amor, amor puro, verdadeiro, amor que ultrapassava a barreira do sexo e das convenções. Queríamos somente poder nos orgulhar do que sentíamos, mas era difícil, impossível...
A primeira mudança que fizemos foi parar de ir ao templo de orações; não queríamos ser hipócritas e incomodava os olhares e murmúrios das pessoas. Embora nossa doutrina religiosa nada dissesse contra nossos atos, a sociedade nos amaldiçoaria para sempre. Na verdade, apesar de muita vezes a culpa e o medo nos tomar, na maioria do tempo preferíamos não pensar nisso, preferíamos ser felizes e esquecer o mundo, mas isso nem sempre era possível...
Comecei a perceber alguns olhares e cochichos quando eu passava com Shun pela cidade. Nossa casa ficava um pouco afastada do meu emprego e da escola do meu irmão, então geralmente tínhamos que cortar toda a cidade até chegar a ela. Acho que os moradores achavam estranho um jovem como eu e um adolescente como ele que não saiam de casa e viviam um para o outro, totalmente reclusos na pequena propriedade; mas não precisávamos dos outros, e eu não entendi porque isso começou a incomodar as pessoas. Fiquei revoltado! Revoltado porque isso feria Shun, e ferir Shun era algo perigoso a fazer comigo por perto.
A verdade era que o Ikki se irritava com as pessoas que passaram a olhar torto para nós dois e deixar escapar piadas maldosas. Morávamos em uma cidade muito pequena e devota, então nossa única saída foi deixá-la. Foi com lágrimas que deixei o mundo que eu conhecia, toda minha vida. Olhei a propriedade em que fui tão triste e feliz na mesma medida e chorei. Triste enquanto esperava o meu amor voltar, feliz porque foi onde nos reencontramos e nos amamos pela primeira vez.
Chegamos a Tóquio na primavera. As ruas exibiam o perfume das sakuras e eram coloridas pelas delicadas flores rosadas. Eu fiquei fascinado com as luzes como se fosse uma criança, enquanto andávamos em direção a nosso novo lar, um prédio modesto num bairro residencial agradável, bastante familiar. Ikki logo conseguiu um novo emprego e com as economias que tínhamos, dava para viver razoavelmente bem. Ingressei na faculdade um ano depois, e Ikki conseguiu um emprego em um banco e aos poucos se transformava em um homem bem sucedido e... Bem, homens bem sucedidos atraem a cobiça feminina, principalmente homens bem sucedidos e bonitos como meu irmão.
Tudo estava perfeito a não ser pela insegurança do Shun. Confesso que estava em uma situação desconfortável, depois de três anos trabalhando no mesmo lugar acabamos fazendo amigos e esses amigos acham que estar solteiro significa estar com problemas, começaram tentar me empurrar encontros e o assédio de uma colega me tirou tanto do sério que acabei aceitando sair com ela, uma única noite, uma única noite que custou todo um futuro...
Eu percebia o que o Ikki estava passando e tinha que aceitar calado. Sempre que ele me levava a uma festa do banco em que trabalhava, via aquela mocinha loira se jogando em cima dele e não podia fazer nada, eu era apenas o irmão! Chorei muito nas primeiras vezes que tivemos que representar esse papel ridículo de apenas irmãos. Deus, amar é tão errado? Amar nos fazia abomináveis? Fiquei depressivo durante um tempo; meu amado tentava me convencer que aquele era o único jeito de podermos nos amar em paz, em segredo... Mas isso estava me matando, drenando minhas forças e eu fraquejei...
O meu encontro com a Esmeralda foi um tédio. Eu precisava apenas dar uma satisfação aos amigos, a sociedade que não aceitava que um homem de quase 30 anos estivesse solteiro e não se interessasse em se casar. Eles não sabiam que em casa eu tinha tudo que queria, eu tinha a única coisa que me interessava, meu irmão, meu amor, meu eterno anjo. Cheguei a casa e estranhei o silêncio e as luzes apagadas; geralmente Shun esperava por mim toda noite; estava tarde, mas não achei que ele estivesse dormindo, o encontrei abraçados aos próprios joelhos num canto escuro da sala com o rosto banhado em lágrimas. Corri e me abracei a ele que chorou mais forte em meu peito.
- Eu quis tanto morrer, Ikki, eu pensei que você tinha ido pra sempre... - ele chorou, chorou muito enquanto eu lhe dizia que nada iria acontecer, que eu o amava e nunca iria deixá-lo. Peguei-o em meus braços e o levei para nossa cama, o amei com loucura e paixão naquela noite, querendo deixar claro que lhe pertencia, que jamais poderíamos ficar separados.
No dia seguinte o deixei dormindo como um anjo enquanto saía para mais um estafante dia de trabalho, liguei várias vezes durante o dia, nos falamos, fizemos juras de amor veladas, já que nada entre nós dois poderia ser muito explícito. Shun parecia bem, mas algo nele havia mudado, eu soube por seu tom de voz, embora não soubesse o que era de fato.
Foi a pior noite da minha vida, a sensação de perda, de fracasso de dor tomaram conta de mim como chaga cancerosa. Sentia-me como um empecilho na vida do Ikki, ele era um homem brilhante, apaixonante, ele merecia tudo de bom desta vida e... Realmente esse tudo de bom não era eu...
Ele precisava de uma família, de uma vida padrão e, por mim, vivia se escondendo da sociedade, se escondendo como se fosse um criminoso, um criminoso por me amar...
Caí em uma profunda depressão, mas tentava o tempo inteiro esconder esse estado do meu amado; sempre que Ikki estava por perto, me forçava a ficar animado, a viver a felicidade ilusória que não estava em meu coração de fato. Eu não queria deixá-lo triste, não queria fazer aquele que era minha vida sofrer, então fingia estar bem...
A cada riso do Shun eu percebia que ele estava representando, representando um personagem pra me fazer feliz. Só Deus sabe quantas vezes eu me penitenciei por ter aceitado aquele encontro forçado; só Deus sabe o quanto me sentia culpado por roubar a alegria do meu irmão, meu amor, a única pessoa que importava de fato.
Tentei de todas as formas provar meu amor por ele; tentei de todas as formas explicar o que me levou àquele encontro; expliquei que era somente para que meus colegas me deixassem em paz, mas nada parecia satisfazer de fato a Shun. Não que ele brigasse ou dissesse que não acreditava em mim, pelo contrário, ele sempre sorria, afagava meu rosto e repetia que me amava a cima de tudo e que compreendia minhas atitudes; mas eu sabia que ele não estava bem.
Segui como pude minha rotina. Acordava cedo, preparava nosso café, mesmo tendo empregada para fazer isso, eu gostava de preparar o café do meu irmão, sempre tomávamos café juntos para que depois eu fosse para a faculdade e Ikki para o banco. Conversávamos como sempre, trocávamos carinhos leves sob o olhar curioso da nossa empregada e sempre arranjávamos um jeito de trocar nosso ardente beijo matinal quando nos despedíamos; mas quando Ikki saía, a dor tomava o meu peito e eu passava horas chorando antes de me decidir a ir pra faculdade.
Minhas notas caíram, na verdade eu mal assistia às aulas, passava a maior parte do tempo embaixo das cerejeiras escrevendo em meu diário, escrevendo minhas dores como faço agora, entretanto, tinha muito medo de que Ikki descobrisse o quão mal me sentia, eu queria que ele fosse feliz e... Eu achei que essa felicidade nunca existiria enquanto ele estivesse ao meu lado.
Foi uma noite em que uma intensa tempestade caía em Tóquio, cheguei tarde a casa, acompanhado pelos trovões aterradores e molhado até os ossos. Entrei e senti o silêncio acolhedor do meu apartamento, meu lar. Tratei de tirar o casaco molhado e comecei a tirar minhas roupas tencionando tomar um gostoso banho quente e ir dormir. Pensava que Shun estaria na cama, perfumado e dormindo como um anjo. Sorri com esse pensamento, como sempre sorria quando pensava nele e caminhei para o quarto, queria dizer que cheguei... Mas ele não estava!
Comecei a procurá-lo pela casa como um louco, ele não estava, não estava em lugar nenhum; ele nunca se atrasava, nunca saía a noite, sempre estava me esperando.
Liguei para todos os seus amigos que conhecia, mas ele não estava com nenhum, o desespero me assolou enquanto eu vasculhava cada canto da casa como um louco, como se a qualquer momento ele fosse pular a minha frente e dizer que aquilo era uma grande brincadeira, uma grande travessura, embora meu pequeno irmão não fosse uma pessoa de fazer travessuras.
Então enxerguei um envelope cuidadosamente posto sobre meu travesseiro; meu coração falhou enquanto eu o abria pra ler...
Ikki,
Eu te amo...
Essa foi a forma que ele começou aquela curta e triste carta que me arrancou lágrimas como nunca...
Irmão minha vida sempre foi você... Até mesmo quando éramos jovens demais para entender que esse amor não era apenas amor de irmão, e, por esse amor tão grande, eu tenho que partir, tenho que deixá-lo para que você sobreviva, você não precisa viver se escondendo, isso é um fardo que pra mim se tornou pesado demais; condená-lo a mentira, a dor, a viver uma vida dupla.
Eu escolho que você seja feliz Ikki, mesmo que eu tenha que perecer...
Nunca mais quero que se esconda, você merece uma vida plena, uma vida inteira e não a metade que se permite ao meu lado.
E se isso parecer difícil demais, lembre-se das flores das cerejeiras que sempre estão presente em cada primavera. Embora elas nunca nos acompanhem mais que alguns dias, sabemos que na próxima primavera elas virão novamente, e novamente por todo o sempre. Assim eu serei, Ikki, mesmo que não esteja perto, sempre estarei com você sempre, e sempre o amarei.
Você precisa voar, amor, e eu não sou a pessoa que deixará que alce vôo, estou me tornando uma corrente, não quero isso, eu o liberto da culpa e da dor, porque eu te amo.
Shun
Só isso, ele não me deu escolha, escolha nenhuma além da dor, e eu chorei, chorei como nunca em minha vida, abraçado àquela carta até que a tinta borrou. Onde ele estava? Para onde ele foi? Como se atreveu a me deixar sozinho no escuro?
Estava transido de dor, ferido de morte. Por vários dias procurei por ele como um desesperado, vasculhei Tóquio, a casa de amigos, a faculdade que descobri que ele havia abandonado. Nenhum sinal! Era como se ele tivesse se transformado realmente em uma fada e sumido no meio da natureza, no meio das sakuras.
Já estava perdendo as esperanças, já não comia, não dormia, pedi licença no banco, pois não tinha condições de trabalhar; meus colegas sabiam que meu irmão havia sumido, mesmo que não soubessem os reais motivos, então todos tentavam ser muito solícitos, mas eu não queria nada e nem ninguém, eu queria o Shun.
Era uma noite de chuva quando alguém bateu a minha porta; meu estado deveria estar terrível, porque a menina arregalou os olhos ao me mirar; eu a conhecia; June, a melhor amiga de Shun.
— Ikki, desculpa a hora, mas eu tinha que vir. — Explicou nervosa e como se pedisse desculpas com o olhar — Olha, ele não queria que eu dissesse isso a você, mas é que... eu sei onde está o Shun e sei que ele precisa urgente de você...
Acho que ela pode ouvir as batidas do meu coração e se assustou quando eu a segurei pelos braços implorando e exigindo que ela me dissesse onde ele estava, não consegui conter as lágrimas, chorei na frente de um estranho, coisa que nunca me permitir fazer.
A pobre garota me passou o endereço que era em um local fora de Tóquio, numa pequena vila em Osaka. Não pensei duas vezes, apenas corri para o carro e partir em direção ao endereço me fornecido por June; meu coração disparava a cada quilometro ganho, eu estava desesperado, morto de saudades, de medo, de dor. Havia quase um mês que não tinha a mínima notícia de Shun, estava realmente morrendo.
A casa ficava na encosta de uma montanha; praticamente isolada em um bosque repleto de cerejeiras e outras árvores retorcidas. Sorri, o lugar tinha a mesma essência de Shun, pude sentir o brilho, a força, a beleza dele a cada passo. A casa era pequena e harmoniosa como somente meu irmão poderia escolher.
Já fazia mais de três semanas que eu havia fugido de Tóquio e do Ikki, hoje realmente me pergunto onde estava com a cabeça, acho que o medo e a depressão fazem isso com as pessoas, e naquela época, medo era tudo que eu sentia, um medo aterrador de machucá-lo de estar roubando o futuro do ser que eu mais amava na vida.
Três semanas. Três semanas e eu não tinha vontade de viver, me entregando nos braços da morte.
Somente June, minha melhor amiga, sabia onde eu estava; a casinha alugada na montanha, em um lugar que eu achei perfeito para morrer; sim, aquela casa seria uma espécie de túmulo, porque sem o Ikki, eu estava morto...
June percebeu que eu não estava bem, na verdade, minha saúde ficou muito ruim, a casa embora bonita, agradável, não possuía a calefação adequada, era fria e isso somado a má alimentação me enfraqueceu muito...
Estava sentado à janela, observando a fina chuva que caía, envolto em um cobertor quando ouvi as batidas na porta. Ele não precisava dizer nada para eu saber que era ele, porque sentia sua força, sua essência.
Tremi e meu coração acelerou enquanto lágrimas desciam por meu rosto. Caminhei até a porta e encostei-me a ela.
— Por que veio aqui, por quê? — Eu gritava desesperado — Vá embora, Ikki, vá viver uma vida de verdade! Eu não quero mais fazê-lo sofrer!
— Shun, abra a porta, amor, não faz isso comigo!
O pedido dolorido do meu irmão tirou todas as minhas forças, eu destravei a porta e cambaleei me sentando no chão, soluçando muito.
Assim que entrei, tomei Shun em meus braços e o beijei de todas as formas possíveis, pedia desculpas sem parar, desculpa se o magoei, desculpa se fiz algo de errado, no fundo sempre me senti culpado pelo encontro ao qual me obriguei. Shun não parava de soluçar e dizer que me amava. Eu o peguei no colo e tive certeza de que ele estava mais leve, o abracei com força contra o peito e me sentei com ele no sofá. Choramos muito até que conseguíssemos explicar um para o outro o que pensávamos e sentíamos, até que conseguíssemos pedir perdão um ao outro por todas as dores causadas.
Amor, paixão, amizade, paz...
Sentíamos tudo isso nos braços um do outro; nos amamos da forma mais intensa que nossos corpos suportavam, eu sentia cada toque e gemia com eles como se estivesse no limiar do desespero, como se necessitasse deles como um viciado. Meu corpo estava febril de vontade de tê-lo em mim de misturar nossas essências, de sentir seu sabor, cada movimento era vivenciado com êxtase, com um amor que se imiscuía em cada movimento convulso do corpo, em cada progressão e recuo que Ikki fazia dentro de mim, em cada toque de lábios, dentes e saliva.
O dia amanheceu e eu despertei nos braços do meu irmão, sorri entendendo em fim que não havia como fugir daquele amor; era mais forte e finalmente percebi que minha fuga pela felicidade do Ikki só fez aumentar sua infelicidade.
Voltamos para Tóquio com a certeza de que nunca mais nada e nem ninguém iria nos separar. Prometemos estar sempre juntos houvesse o que houvesse e que se danasse a sociedade, que ela cobrasse, exigisse, gritasse nossa “imoralidade” a plenos pulmões, não nos importaríamos mais, viveríamos nosso amor, em silêncio sim, mas jamais em culpa.
Vivemos dias felizes em nossa volta a Tóquio, a felicidade em nosso olhar era evidente, o amor era evidente para os mais atentos; entretanto, algo me preocupava; Shun continuava sem apetite, tossindo e abatido, então eu insistir para que ele fosse ao médico.
O diagnóstico: TUBERCULOSE.
Shun ficou arrasado, sentia-se o único responsável por aquilo, e eu tentava consolá-lo, dizer que ele conseguiria se curar, que já havia tratamentos eficazes contra a doença que ele era jovem e que ainda tinha muita vida pela frente, mas o meu irmão recebeu o diagnóstico como uma sentença de morte...
Eu sentia muito medo, meu maior medo era passar esse terrível fardo a Ikki, embora ele parecesse não temer nada, continuava me abraçando, me beijando e repetia sem parar que se um de nós morresse os dois morreriam. Choramos juntos em muitas noites, Fizemos planos para quando chegássemos juntos ao paraíso, rimos ao pensar que nenhum paraíso aceitaria o nosso amor então era melhor que continuássemos vivos...
Vimos à primavera ir embora e levar as sakuras, e o verão trazer o sol e o calor reconfortante; caminhamos sob o sol nos dias quentes e sob o luar nas noites mais frias; fizemos juras de amor eterno e tivemos brigas por bobagens; nos permitimos tudo que um casal merecia...
Eu corri... o Ikki me alcançou e findamos o verão juntos como amigos, irmãos e amantes, dando passagem para as folhas caídas do outono...
Meu tratamento continuava, mas os médicos não pareciam muito otimistas, a tuberculose é uma doença difícil de combater e o tratamento requer disciplina e uma boa resposta do organismo. Eu comecei a ter febre e perdi bastante peso, já sendo magro isso se acentuou.
Quando o Shun piorou de saúde, eu deixei o emprego no banco para me dedicar somente a ele. Recebi uma boa indenização e com ela pude comprar a casa da montanha em Osaka, lugar que ele tanto amava e nos mudamos para ela semanas depois, eu queria me dedicar somente ao meu irmão.
Mesmo com a saúde debilitada, ele não parava de sorrir e de me falar coisas agradáveis, falava sobre o futuro, a próxima primavera, as sakuras que viriam enfeitar aquela montanha. Falava do nosso amor eterno e do nosso voto perpétuo...
Sempre juntos... Nunca só...
Eu tentava compartilhar do seu entusiasmo, mas havia momentos em que não suportava e chorava, estava perdendo o amor da minha vida, a única pessoa que dava sentido a minha existência...
Não gostava de ver o Ikki fraquejar e nunca chorava com ele, ao contrário, eu enxugava suas lágrimas, sorria e dizia que veríamos o próximo verão juntos; nunca deixei de acreditar que veríamos as próximas estações juntos, era isso que me dava forças para continuar tomando os remédios e ter aquela centelha de esperança no íntimo de minha alma que, mesmo que não fosse naquela vida, em outra eu e o meu amor veríamos o verão novamente.
Shun me enchia de esperanças e vivemos os nossos últimos dias como realmente os últimos com uma intensidade que somente quem amou de verdade pode saber do que estou falando...
— Ikki, estou pronto... — Shun murmurou deixando a caneta e sorrindo para o irmão.
Hoje é o primeiro dia da primavera de 1954 e pela janela posso enxergar as sakuras, minha última lembrança dessa vida.
Meu irmão me pega nos braços e me leva para a cama perfumada que dá para a janela onde as pétalas das flores de cerejeira entram sem pedir licença. Ele que escrevia também em seu diário o fecha e o coloca junto ao meu, depois me mira com todo o seu amor e se deita ao meu lado na cama, tocando meu rosto frio com os seus dedos longos.
Ah, pra não dizer que não falei das flores tão amadas por Shun, posso dizer que elas representaram nosso puro amor; nosso amor eterno que deixou mensagens ao vento como faz a cerejeira na primavera, dizendo que um dia renasceremos, e que não deveríamos chorar por nossas vidas tão efêmeras e trágicas...
Deslizo meus dedos pelas pálpebras de Shun que sorri, lembro-me de todas as vezes que fiz isso em minha curta vida; na infância com ele em sua pequena cama, ou na cama onde estamos deitados agora como amantes. Brinco com seus cílios longos, fechado seus olhos mais uma vez enquanto uma lágrima desce por meu rosto e por seu rosto no mesmo instante...
Sussurro um eu te amo que ele responde com um leve mover de lábios antes de cair no silêncio eterno...
Então espero até ter a certeza de que ele não mais abrirá seus lindos olhos e antes que a dor tolde qualquer movimento meu, pego o líquido que me espera em uma pequena garrafa de vidro e o viro nos lábios...
Seguro a pequena mão do meu irmão, e a bruma da morte me envolve também. É indolor, somente um novo amanhecer...
O vento que trás as sakuras agita as páginas dos diários e deixa exposto o último pensamento do meu irmão, um pensamento para o futuro, para uma nova vida na qual queremos amanhecer... Uma vida onde sejamos mais que pecadores, onde possamos dizer o nome desse amor que vivemos, onde o que importa seja verdadeiramente o amor...
Posso dizer que ainda espero o futuro, um futuro onde sejamos mais que simplesmente errados. Eu espero que as coisas melhorem, que as pessoas melhorem, que elas possam enxergar um dia com os olhos da alma e não com os olhos das determinações sociais.
Por que deixo essas linhas? Deixo esse testamento para que ninguém diga que foi sujo,horrível, abominável. Deixo essas linhas apenas para que todos saibam que mesmo contra todos, mesmo que contra o mundo ou até mesmo contra Deus...
Foi amor.
The End


